MOTI. Como nasce um herói?

28 de Julho de 2014

MOTI. Como nasce um herói?

- Cosmin Moti a voar para as mãos de deus

O título “Mão de deus” foi usado quando, ilegalmente, Maradona colocou a bola dentro da baliza adversária e, por isso, endeusado. Ontem, Cosmin Moti deu-lhe um novo significado. Podemos-lhe chamar “o defesa central com mãos de deus”, para os que acreditam. Não foi obra do acaso.

Aos 119 minutos, com a eliminatória de apuramento para a fase de grupos da Champions League 2014/2015, empatada em 1-1 (no agregado) entre Ludogorets e Steaua, Vladislav Stoyanov , que fora o melhor guarda-redes da Bulgária na temporada passada, saiu da baliza em fúria e, tal como o próprio, os quase 17 mil adeptos de Razgrad no Vasil Levski colocaram as mãos na cabeça. Moti teve um procedimento diferente. Partiu para o banco e colocou as mãos no equipamento de Ivan Cvorovic, guarda-redes suplente impossibilitado de entrar devido às mudanças estarem esgotadas.

MOTI. Como nasce um herói? A partir daí criou-se história. O defesa central Romeno, Moti, recebeu as dicas de Nikolay Donev, treinador de guarda-redes das águias de Razgrad, e fez questão de ser o primeiro a marcar a grande penalidade, dois minutos depois de se enquadrar num alter ego de luvas a preceito.

Com sucesso, converteu para o lado direito de Arlauskis, guardião do Steaua, e partiu para festejar na cara do Lituano. Dois passos dados, um no resultado e o outro no aspecto fundamental destas decisões, o emocional. Estava lá Moti(vado).

No seguimento, sofreu mas adivinhou o lado da cobrança e Arlauskis defendeu e empatou a eliminatória em 1-1. A resposta não demorou, Moti interceptou a grande penalidade da sua vez. E assim seguimos até à decisão (ainda mais) histórica: com Arlauskis e Moti a sofrerem os golos, apesar de acertarem quase sempre a direcção das marcações. Até que, depois do penalti de Fábio Espinho convertido com sucesso, o momento de Moti chegava. Voou para o seu lado direito e abraçou a bola, caiu e rebolou por cima dela, olhou para os seus colegas e a sua correria só terminou no alambrado, a festejar a sua imortalização junto daqueles que irão entoar o seu nome pela Bulgária durante vários tempos.

Desconhecendo a personalidade de Moti, ficámos adeptos da sua atitude. Poderia ter-se lamentado pela expulsão do seu guarda-redes. Mas não. Como descrito, partiu para o banco, colocou a camisola 91 e calçou as luvas. Como prémio, para além da entrada na história, terá uma secção com o seu nome no novo estádio do Ludogorets e mais 100 mil Euros na sua conta.

Mas, o que faz um defesa central em cima da linha, numa decisão crucial como esta?

A primeira reacção do interveniente será explorar o aspecto psicológico que este capítulo do jogo requer, de que muitos erroneamente apelidadam de “lotaria”. Moti distinguiu-se aí, a partir do momento em que converteu o seu penalti e deu o mote para os colegas se tranquilizarem. Jogou com as emoções, com os pés e com as mãos, conseguindo ainda desafiar o guardião adversário ao festejar na sua cara.

MOTI. Como nasce um herói? Já no ponto de vista técnico foi pouco ortodoxo, algo a esperar de quem não tem rotinas nem de treino nem de jogo nesta posição. Aos 29 anos, com 12 no escalão sénior, um defesa central de alto rendimento tem adquiridas várias vivências que o permitem analisar os estilos de conversão dos penaltis e para onde “normalmente” eles se dirigem. Aí, conseguiu ter rapidez e agilidade para se atirar para o lado direito e esquerdo, para, em 7 penaltis, adivinhar 5 direcções e defender duas marcações.

VER A EPOPEIA DE MOTI EM LFL TV

https://www.planetadofutebol.com/media/cosmin

 

- Roberto Rivelino
Criador do projecto O Mundo dos Guarda-Redes.