Nani, a estética do futebol de rua

03 de Março de 2007

Nani, a estética do futebol de rua

Todos nós temos formas diferentes de reagir ás derrotas, aos dissabores da vida. É contra-natura preparar o fracasso. Imaginámos desafios e preparamo-nos para os ganhar. Mas é inevitável, muitas vezes, perder. No futebol também. É como uma equipa ter a bola. Enquanto a tem pode fazer maravilhas, mas é inevitável que vai acabar por a perder na maioria das vezes. No jogo, o golo é a excepção a esta regra. O fundamental, portanto, é saber como reagir após a sua perda. Táctica e atitude. A única coisa que actualmente pode ser proporcionalmente comparada à facilidade com que se fabricam grandes estrelas é a velocidade com elas caem pouco depois.

Nani é um menino nascido na melhor universidade de talentos da bola: o futebol de rua. Em menos de um ano, a sua forma de estar em campo e reagir ao jogo, transformou-se. Basta muitas vezes olhar para a cara dele nos grandes planos. Desvaneceu-se o menino assustado que, rebelde, ganhava vida e sorria quando a bola lhe vinha parar aos pés e iluminava o jogo com a alegria pura, até infantil, típica picardia da rua. Agora, nos grandes planos, vemo-lo mais apreensivo, a alegria foi submersa pela tensão de ir receber a bola e sentir que já não o olham da mesma maneira pura e devota. Paulo Bento sabe disso.

Nani, a estética do futebol de ruaEsta semana, referindo-se a ele, falou primeiro num menino, mas, de imediato, travou, e substituiu por homenzinho. Neste pequeno detalhe há implícito a consciência de um processo de transformação que, num jogador de futebol, não contempla quase tempo para pensar. Amaciou a forma como se refere a ele mas é utópico pensar que o publico -monstro insensível de milhares de cabeças- tenha esta reflexão ponderada. Ele não existe para isso. Pelo contrário, existe para fazer julgamentos sumários. Injustos. Eleger heróis e vilões em segundos e, até, alternar esta classificação no mesmo jogo. Sempre foi assim. Sempre será assim. O fundamental é, portanto, saber como reagir ao fim da lua-de-mel. Atitude e táctica.

O futebol de Nani, como o de muitos outros talentos no passado, vive hoje nesse túnel. Quanto mais pesado o ambiente, mais a sua alegria escurece. A crise do seu belo jogo tem, porém, origem externa ao seu talento. A bola passou a ser vista como um inimigo. O jogo como uma ameaça. Por cada dia que passa, por cada centímetro que cresce, por cada jogo que disputa, mais se distancia da sua origem. O sistema em que joga, 4x4x2, pelas obrigações tácticas que lhe impõe, afasta-o mais do que qualquer outro da raiz livre do seu jogo. Jogar até que o sol ou a luz do dia desapareça. Ao líder exige-se que nos leve pelos melhores caminhos, como só ele sabe. É essa a missão de Paulo Bento. No futebol, como na vida, o segredo passa, quase sempre, por resgatar essas raízes e seus instintos. É isso que falta hoje a Nani. O seu verdadeiro futebol.

Capacidade de encolher os ombros quando falha, driblar os assobios e voltar a jogar. Com instinto. No fundo, voltar a sentir o futebol de rua.