No fim, só fica um coração

26 de Maio de 2019

Num  duelo de equipas com corações tão diferentes, este FC Porto não tinha saída: Ou ganhava claramente ou perdia cruelmente.

O futebol tem coração? Dentro de cada equipa tem de ter, é indispensável. No jogo e resultado que o sentencia no fim, não, nunca teve. Por isso, ao ouvir Sérgio Conceição falar em crueldade após a forma como perdeu a Final da Taça, parecia ouvir alguém que só o sente pelo lado da causa-efeito mais natural na relação jogo-resultado. Porque haveria o futebol de ter esse coração justo nessa tarde se já não teve em tantas outras?

O FC Porto teve a chave da iniciativa ofensiva do jogo, criou muitas oportunidades em face de um “jogar” colectivo inteligente, soube pressionar e jogar. O problema é que do outro lado estava uma equipa que sabia muito bem que isso era o mais provável. O Sporting nunca se achou melhor que o FC Porto. Sabia que não podia ser na iniciativa e, assim, foi reconhecendo limitações que voltou a ser extremamente competitivo neste tipo de jogos.

2.

O momento em que senti mais isso até foi no inicio da segunda parte. Bruno Fernandes tinha empatado perto do intervalo. Quando então regressaram dos balneários, os jogadores vinham mentalizados para baixar o bloco, aguentar a entrada forte do FC Porto e, depois, tentar ganhar na expectativa do contra-ataque. Levou, assim, o jogo até ao prolongamento, onde já entram outros factores, para além do duelo “identidade de jogo portista” versus “identidade de estratégia leonina” que marcara os 90 minutos.

Com o desgaste, nas pernas e cabeça, um ressalto já consegue ser maior que o jogo todo no efeito frio (e cruel) no resultado. Os penáltis muito mais.

Este Sporting de Keizer descolou do romântico “jogo de triângulos” holandês para, neste jogos, se deixar convencer pelo jogo de “linhas juntas e especulação” latina. Só assim consegue ser competitivo assumindo ser “menos equipa” na capacidade de poder ter iniciativa no jogo. Tem de ser reativa e esperar. Se o adversário “não matar” (como sucedeu) e sobreviver, então pode ser mesmo cruel e ganhar. 

O que faz ganhar este FC Porto de Sérgio Conceição é, muitas vezes, o que faz (ou pode fazer) perder. Ou seja, é uma equipa que joga com “sinceridade total”. Começa o jogo e lemos logo o que quer fazer. Na velocidade, flancos a explorar, forma de pressionar e sair. Mesmo quando não funciona algo, vê-se logo onde pela reações dos jogadores e treinador.

Sinto que lhe falta por vezes “esconder o jogo” e assim confundir os adversários que, vendo-os logo a pegar nele, reagem instintivamente para a estratégia. E... num jogo disputado então com corações tão diferentes dentro das duas equipas, os resultado só mesmo ser um dois: ou ganha claramente ou perde cruelmente.

Receio em pressionar 

Foi uma época pouca estimulante em ternos tácticos. No geral, as equipas pressionam cada vez menos. Tirando o FC Porto por natureza de jogo, sinto que é por receio de, ao fazerem-no, o adversário, se inteligente na transição defesa-ataque, saltar essa pressão mais alta ou subida (coisas diferentes, uma coisa são encurtamentos em pressão, outra é meramente subir o bloco em organização sem sair em pressão) a equipa ficar exposta nas costas, entrelinhas (entre a sua linha de médios, apanhada subida e linha de defesas mais atrás).

Bruno Lage, no balanço final, confessou-o ao dizer que os piores momentos foi quando quis jogar mais em expectativa por receio das deficiências de transição defensiva que tinha. Sofreu com isso porque deixava, assim, de fazer o melhor em iniciativa ofensiva. O Sporting foi uma equipa em construção conforme Keizer foi conhecendo o nosso futebol. Tanto pressionava como baixava linhas. O Braga começou com uma ideia melhor do que acabou. Quando quis pensar em demasiadas alternativas de aplicação de identidade acabou por confundir-se a si próprio em alguns jogos.