NOTAS 2009/10 (38)

10 de Maio de 2010

NOTAS 2009 10 38 3

1. O triunfo do treinador

Foi a maior notícia da última jornada: o Marítimo apurou-se para a Liga Europa. Ganhou em Guimarães num jogo tacticamente à sua medida.

Penso que a base para o crescimento da equipa nesta fase final esteve na descoberta (e assunção) da sua identidade. É, no processo ofensivo, sobretudo uma equipa de contra-ataque, daquelas que gosta de jogar em velocidade. Para isso, tem alas rápidos (Djalma, Manu, o lateral Paulo Jorge quando sobe) e um ponta-de-lança (Kleber) que tanto joga de costas para a baliza (em apoio) como virado para ela (em desmarque e remate).

A nuance estratégica nesta recta final foi, mantendo o 4x2x3x1, a entrada de Baba (ponta-de-lança de raiz) para as costas de Kleber, em vez de jogar ao seu lado. Esta simples inovação posicional de colocar Baba a jogar entre-linhas mas tendo sobretudo em mente, respeitando a sua vocação, a baliza e o remate, e não o passe como é normal num jogador nesse espaço, foi o suficiente para a evolução atacante da equipa, confundindo os adversários. Um grande triunfo pessoal do treinador Mitchell Van Der Gaag.

2. A diferença no passe

NOTAS 2009 10 38É impossível, quando se pensa em bom futebol, fugir à ideia da qualidade de passe. A sua presença muda o jogo. Para a sua aparição, porém, são decisivos jogadores que o dominem sobretudo em zonas adiantadas do meio-campo, quando as marcações apertam. É por isso que gosto tanto de ver jogar Nuno Assis. Passeando pelo campeonato, é difícil descobrir jogadores com esses traços. Nessa busca, porém, há um jogador que sempre achei poder dar mais. Não, não vou falar outra vez do Zé Pedro. Podia falar no Silas, mas para escrever isto pensei no Neca. Essa sensação de poder «jogar mais» nasce exactamente da sua visão de jogo e boa capacidade de passe. Nunca foi um jogador com muita intensidade, mas de cada vez que toca na bola nota-se que o jogo melhora logo.

Num V.Setubal sempre em bloco baixo, perdido entre meio-campo e ataque, tentou preencher mais espaço do que era tacticamente possível. Quando o conseguia, o onze parecia outro. Pensando numa equipa dita média com outra filosofia, não teria dúvida em apostar nele para ser os olhos do meio-campo.

3. A solução mais “simples”

NOTAS 2009 10 38 2O jogo é feito de tácticas e elas amarraram-no muitas vezes. Um jogador, com o seu talento, resolver, por si só, os problemas mais complicados, é quase uma fuga a todas essas jaulas tácticas. Por isso, quando, durante o fechado Oliveirense-Portimonense, vi Wilson Eduardo fazer aquela jogada individual na hora mais difícil, poucos depois de ter entrado, foi irresistível não esboçar um sorriso cúmplice. Ainda na passada semana ele estava na caixinha aqui ao lado. Cada vez mais o futebol precisa de talentos destes. Cada vez mais, no entanto, é difícil eles encaixarem nele. Porque, na maioria do tempo, eles fogem à lógica táctico-colectiva do jogo.

São, ao mesmo tempo, uma ameaça para o adversário (pelo que inventam) e para a própria equipa (pelo que comprometem a defender).

O Portimonense conseguiu a subida pelo que joga e vale como equipa.

Mas, mesmo vendo esse equilíbrio colectivo (os cortes de Balu, os passes de Diogo, a mobilidade de Pires), não imaginaria melhor forma para escrever esse destino do que uma invenção de Wilson Eduardo.