Diego. 60 anos. O caos e a realidade

30 de Outubro de 2020




“O espectáculo.
Eis a armadilha onde apanharei a consciência do Rei”
Shakespeare, em “Hamlet”. 

Maradona, no futebol composto como um mundo de fantasia. Por vezes alucinante, por vezes perturbante. Maradona, o sagrado e o profano. O futebol e outras artes. 

A mão de Deus é algo impossível de se ver. Apenas se pressente. Como uma nuvem invisível que cobre o Mundo do futebol e decide quando faz chover ou dar sol. Acredito que há locais em que pode não ser bem assim. Locais onde seres meramente terrenos podem mudar o Mundo. Ou, pelo menos parte do mundo. Uma ousadia só possível com o poder da arte, seus interpretes e instrumentos. A musica, o bailado, a poesia. À primeira vista, o futebol não se acha deste mundo. É, talvez, demasiado humano nas suas imperfeições e defeitos, puramente emocional. Concilia o caos inicial individual com a racionalidade do conceito de equipa. Acredito que está aqui a origem da criação. Sempre a insustentável leveza do ser.

É quando o futebol sai da relva que tudo isto parece mais romanceado. Kusturica é um realizador descobridor de almas, filma-as. Maradona é a máxima ironia magica com a bola. Júlia Roberts é a sedução com duas pernas, hipnotiza. Três formas de sedução. Três formas de beleza. Cada um vê o mundo com olhos diferentes. Todos o seduzem. Com beleza perturbante.

Em Cannes, onde as passadeiras são vermelhas de verdade, ver Maradona a dar uns toques na bola –“tic, tic, tic”- subindo para a cabeça, equilibrando-a como uma foca, é quase como uma prova da imaginação de Deus.

O futebol aproxima-se de outras artes, de outras actividades, aparentemente tão distantes. São momentos em que fica mais distante da sua existência. Pura ilusão. Eles são tão próximos. Íntimos em muitos gestos. Em muitos pensamentos. Filmar a alma é impossível. Filmar um jogador de futebol sucede todos os dias. O supremo desafio é cruzar estas realidades. Entrar na mente do jogador durante 90 minutos. Tudo o que ele sente. Duvidas, medos, anseios, alegrias, cansaço, coragem, desespero.

Maradona é uma ironia na criação futebolística porque confunde qual o seu local de origem. O caos ou a racionalidade? A vida como um permanente Carnaval, sob a lente de Kusturica num filme que faz de Diego mescla de herói com bola e uma espécie de “punk rocker foot”. Todos os grandes jogadores terão a mesma casta. Sem os exageros do pibe argentino, mas pelos mesmos caminhos da criação. A que encontra o ponto ideal de cruzamento entre o caos e a racionalidade. Na vida também é assim. Mas já não existem mais “maradonas” no sentido epistemológico do termo.

O jogador de futebol está globalizado. Como a personagem fictícia do “homem camaleão” em Zelig de Woody Allen, que não tem personalidade própria assumindo as características das pessoas que os rodeiam. Muitos jogadores actuais fazem o mesmo dentro do relvado Assumem o perfil dos outros. Para o bem e para o mal. Pode até, no limite, tudo isto quase levar o jogo para o lado cientifico ideal do treinador. “Standardizar” jogadores e seus pensamentos. Como para Aristóteles a habituação era essencial para fazer a unidade entre crença adequada e emoção adequada.

Uma equipa de futebol em campo é a reprodução de um conjunto de hábitos mas as coisas não funcionam assim no processo criativo do melhor futebol, do chamado “jogar bem”, em equipa ou individualmente. Maradona é o nirvana desse processo. Na mão de Deus que confessou trocar pelo simples aproximar-se de Julia Roberts. Como se fosse uma personagem de Shakespeare, o mestre que percebeu antes de todos a coexistência do horror e grandeza no ser humano. Afinal, é esse o espelho de Diego.

O futebol deve procurar ajuda na razão para sustentar a preparação do jogo. Deve procurar a emoção para encontrar a sua essência. Como explica Maradona com uma bola na passadeira vermelha de Cannes.