O domínio do invisível

14 de Agosto de 2020

Regra básica: nenhum jogo dominado pelo maior volume ofensivo está... controlado defensivamente! O Benfica sofreu isso na pele contra o PAOK

É irresistível: ver a equipa que mais ataca como sendo automaticamente a que domina o jogo. Pode ser, mas essa relação direta outra não existe. Nos subterrâneos tácticos dum jogo pode suceder o contrário. Isto é, ser aquela que mais defende, mesmo plantada atrás, a ter o jogo como quer.

Eu sei que isto é estranho mas o PAOK-Benfica foi bom exemplo disso. Mesmo naquela primeira parte de ataque permanente encarnado, nunca senti que o Benfica estivesse a dominar o jogo. Estava apenas a atacar mais (muito mais). Não é a mesma coisa.
O plano e estratégia do PAOK já trazia isso previsto. O seu tempo no jogo para o tentar ganhar seria na segunda parte. Quando o Benfica já não conseguisse igual intensidade de pressão-recuperação- ataque e a ansiedade abrisse fendas na cabeça dos jogadores.
Claro que se levarmos o jogo para o campo simplista da eficácia na relação com o golo, a bola no poste de Pizzi ou o cabeceamento falhado de Seferovic, podiam ter roubado esse momento em antecipação, mas isso era um risco que a estratégia de contenção de Abel sabia correr. Tinha de sobreviver a essas jogadas para ficar viva para o seu momento no jogo. E assim foi.

Durante o jogo todo, o PAOK terá tido quatro saídas ofensivas com perigo. Todas na segunda parte. Fez dois golos. Se tivesse saído mais vezes para o ataque (oito vezes que fossem), o mais provável, sobretudo na primeira parte, teria sido o de... sofrer dois golos.
Por uma razão simples: cada uma dessas saídas iria corresponder, perdida a bola na frente, a um desequilíbrio defensivo atrás, dando espaço para o ataque rápido em que o Benfica é forte. Por isso, Abel nunca desposicionou a sua organização defensiva. Renunciou a jogar o “meio-jogo ofensivo” para ficar sempre completo no “meio-jogo defensivo”.
Quando se esticou a querer sair na segunda parte (segunda momento do plano) foi quando esteve mais perto de sofrer um golo em contra-ataque. Sobreviveu e logo depois aproveitou o... desequilíbrio defensivo benfiquista, convencido que estava a dominar o jogo por tanto atacar, e marcou.

Regra básica: nenhum jogo dominado pelo maior volume ofensivo está... controlado defensivamente.
Para dominar de forma absoluta um jogo é preciso perceber se quando o adversário não está a atacar tal resulta porque é impedido disso ou porque é opção dele. O Benfica pensou que a razão era (só) a primeira. No segundo tempo percebeu que, na realidade, era muito da segunda. E, assim, de repente, perdia 2-0.
O futebol tem muitas histórias destas. A do jogo escondido que ninguém consegue ver (só vendo o “umbigo ofensivo” das jogadas de uma equipa). É o domínio do invisível.


Zivkovic: Jogar o “triplo”

Só é possível perceber o “jogo inteiro” a partir de igual observação atenta das duas equipas. Para confirmar a tese do plano de como ganhar um jogo... jogando com os seus diferentes momentos (correspondente a diferentes posturas no jogo) Abel lançou Zivkovic em campo logo após ter ficado em vantagem (1-0).
Se a tese do domínio encarnado sufocante fosse mesmo real, tal levaria a que (com o PAOK admitindo que não conseguia sair é só restava aguentar) a Abel metesse antes mais um defesa para reforçar a trincheira defensiva e segurar a vantagem dita caída do céu. Foi (planeadamente) ao contrário.
Meteu um avançado rápido, com vontade de ir para cima de morder quem há uma semana, o tinha dispensado e, assim, pouco depois, fez um golo ao seu estilo. Arranque, finta seca para dentro (perante um Grimaldo de papel) e remate.
O futebol também está cheio de histórias destas: a do jogador de orgulho ferido por ser dispensado, lançado pouco tempo depois, no momento certo, contra a anterior equipa. Neste caso, é que jogam mesmo o triplo. Sem avisar.