O estranho nível do receio

19 de Abril de 2019

A dimensão do receio encarnado dos seus problemas defensivos levou-a a recuar demasiado e a perder sem jogar o seu jogo.

Os jogos das competições europeias, quando atingem níveis mais avançados ou colocam adversários de nível forte, levam sempre as equipas portuguesas (penso nos grandes) a fazer taticamente coisas que geralmente não fazem no campeonato. Por sensibilidade de obrigação estratégica, mudam muitas das suas rotinas internas em que jogam quase sempre no momento ofensivo. A súbita imposição de ter de defender mais e melhor perante outro tipo de adversário coloca então á prova esse seu poder também no momento defensivo (em que raramente é testado ao máximo nos nossos relvados).

O Benfica de Lage tem mostrado boas ideias mas se há momento em que a equipa tem sentido mais problemas é, claramente, a defender. Mesmo perante equipas ditas medias-pequenas sofre demais no momento pós-.perda da bola na transição defensiva.
Foi talvez a consciência e receio disso num jogo em que o Eintracht teria de entrar forte atacar, que levou Lage a fechar a equipa mais atrás num plano de jogo de “estratégia de controlo” que pretendia não expor a equipa a esse problema do processo defensivo. A vantagem de dois golos convidada a essa opção.

2.

Esse “chip táctico” levou, no entanto, a equipa a ficar demasiado recuada com um triângulo Fejsa-Samaris (duplo pivot) e Gedson (mais subido) no meio-campo. desterrando João Félix para a faixa esquerda. Um processo de posicionamento para segurar a zona intermediária em 4x2x3x1 com o médio mais adiantado para… pressionar (em vez de Félix para criar). Tentava assim controlar a eliminatória (este jogo) pela organização só que com tanta preocupação em não perder os posicionamentos sem bola (ou no momento da sua perda) a equipa passou toda a perneira parte sem fazer um contra-ataque, só desejando que “não acontecesse nada”.

3.

O Eintracht nunca foi, porém, muito ameaçador mas perante este convite tático tão insistente, começou a subir mais no terreno (e atacar) e a colocar o jogo sempre perto da área do Benfica. Acabou por marcar assim.Com a eliminatória presa pela “corda de um golo”, o Benfica subiu uns metros na segunda parte. O bloco deu passos em frente e diminuiu a elevada “estranha dimensão do receio” mas sem evitar o “buraco negro” defensivo que deu o 2-0.Só a partir daí o Benfica tentou surgir em campo aproximando-se do seu modelo habitual com Pizzi a tentar agarrar taticamente o jogo com bola. Desterrado na esquerda, Félix ficou perturbantemente a olhar para o jogo até ao fim (terminado num 3x4x3 que só queria meter a bola na frente). Mais do que a eliminação em si, o “pecado encarnado” esteve no facto dela ter acontecido com ideias estranhas á sua melhor forma de jogar.

Por favor, ajudem-me!  

Há o aroma romântico do Ajax. mas o que as meias finais europeias dizem é que em “relvados faraónicos” existem os clubes ingleses e existem os outros. Tottenham e Liverpool (caindo o City num confronto direto e United aos pés de Messi) na Champions, Arsenal e Chelsea na Liga Europa. Podem existir duas “finais europeias inglesas”. Antes, se isso acontecesse, podia-se falar de futebol, refletir sobre estilos de jogo, as tendências que o marcam e estão na vanguarda tática e seus jogadores. Enfim, falar de futebol.
Agora, vendo isto acontecer, reconhecendo, naturalmente o valor das equipas (babilônias de estilos e onzes-multinacionais) falamos do que é hoje o “negócio”, o trilho do dinheiro, fortunas árabes, direitos televisivos...
Tento fugir mas não é fácil porque aparece o VAR e... caça-me fora-de-jogo nem que seja por centímetros. Refugio-me a confrontar diferentes ideias de jogo de cada treinador. Fico a falar sozinho. Vem de novo a lei “mata-emoções”, dinheiro e VAR. Não sei como fazer para sobreviver emocionalmente. A minha paixão pelo futebol está nos cuidados intensivos