O jogo são muitas ideias e não uma só!

24 de Janeiro de 2021




Grimaldo não surpreendeu como defendeu. Surpreendeu como atacou. A visão sobre o clássico FC Porto-Benfica

As duvidas não são uma condição agradável, mas as certezas são um absurdo. Esta frase, ancestral, de Voltaire, contem toda a vida em si mesmo. Pode parecer abusivo mas penso nela vendo futebol (e ouvindo falar dele, trinadores e simples adeptos). Se nem a vida tem (sempre) soluções para tantos problemas variáveis e distintos que aparecem todos os dias, imaginem o futebol. Não existem “fórmulas infalíveis”. Os jogos resultam sempre de “confrontos indecifráveis”. Este ultimo clássico mostrou bem esse lado multidimensional da realidade que se confronta, diariamente, consigo própria.

Grimaldo é um jogador baixinho que corre parecendo ligado á corrente eléctrica. Tem, no entanto, um “berço de formação” que é a “universidade do jogo posicional”. Saber o que é a pausa e o “timing” de entrar nos espaços. Ele foi, no Dragão vazio, a formula individual inesperada, que entre um plano perfeitamente premeditado por Jesus, o treinador, e a improvisação planificada por ele, o jogador, o factor que funcionou para superar duvidas e confundir certezas. Viu-se o seu nome na ficha do jogo e pensou-se que existira uma “duplicação de laterais”. Existiu antes uma multiplicação de posições. Na estrutura, parada (ou na posição sem bola) até á célebre dinâmica (ou a posição com bola) ele foi de “segundo lateral adiantado” a ala ofensivo, até nº8 a jogar “por dentro”, meia-esquerda, com penetração. Foi defesa, “terceiro médio” e avançado num plano conciso que teve nele o “coelho táctico saído da cartola”.

O treinador adversário tem de estar preparado para reagir a esses momentos e fugir à mais desagradável (e inesperada) dúvida. E aqui surge o jogador outra vez. Outro jogador, claro, na dicotomia do confronto. Corona tinha sido o principio da “fórmula Grimaldo” como contra-estratégia individual para travar o maior gerador de duvidas imprevisíveis que, recentemente (noutro jogo) tinha desintegrado a defesa benfiquista. O “alçapão de marcações” agora preparado para ele cair quando entrasse nos espaços que, por norma, cria perigo, foi montado e, surpreendido, ele caiu nele no inicio. Só quando percebeu como o tinha de contornar, conseguiu (ele e a sua equipa) livrar-se da inicial “estrutura-jaula indecifrável” benfiquista.
O FC Porto entrara para o clássico convicto de saber “como joga”. O Benfica entrou sem saber bem “ao que joga”. Podia, visto assim simplesmente, um confronto desequilíbrio. Seria se tudo não fosse subvertido pelo tal jogo das dúvidas e certezas em que o futebol é (felizmente) imprevisível e indecifrável.

As “emoções passageiras” são uma especialidade no futebol. Nas antevisões e durante os jogos. Os sistemas tácticos já são (há muito) dogmas inexpugnáveis. Jesus sabia que não podia voltar atrás e fazer um novo começo para a equipa na época. Sabia, porém, que podia começar de novo para preparar/provocar um novo final. Era impossível para Conceição adivinhar como o adversário iria mexer para reequilibrar as força até agora desequilibradas entre as “salas de máquinas” das duas equipas. Grimaldo não surpreendeu pela forma como defendeu. Grimaldo surpreendeu pela forma como atacou.
Como simulador perfeito de alegrias e tristezas, o futebol (o jogo) quase brincava com tudo isto no resultado naquela bola que desceu cedo demais e a montanha de músculos Marega, a centímetros da baliza aberta, quis rematar (encostar) com o peito. Não lhe conseguiu ocorrer outra forma de finalizar naquele momento que é uma “metralhadora de emoções” na cabeça de um jogador. E a bola foi, mansamente, parar às mão de Vlachodimos.
Estamos perante o campeonato mais invulgar das nossas vidas. Confinados, estádios vazios, treinadores a discutir perante um “esqueleto de multidões” e, na face mais importante da realidade, o confronto entre um “baixinho eléctrico” e um “monstro musculado”. De Grimaldo a Marega. “Cara ou coroa”?