O melhor futebol “empresarial-fabricado” do mundo

19 de Janeiro de 2021




De Leipzig a Salzburg: Como ver o “projeto Red Bull”?

Foi o maior golpe táctico desta ultima jornada da Champions: a estratégia de Nagelsmann ao montar o seu Leipzig numa dinâmica que partia de três centrais mas que lançou um nº8 de rotação, Haidara, como ala a fazer todo o flanco direito, enquanto na esquerda surgia outro “carrillero”, Angelino. O esquema estendia-se numa espécie de 3x3x1x3, com um pivot (Kampl) um “falso 9” inventado (Olmo) e “por dentro”, Forsberg, como segundo avançado (tendo ainda no apoio, como interiores subidos, Sabitzer e Nkunku).
Nesta metamorfose de posicionamento de alguns jogadores, confundiu o 3x4x1x2 do Manchester United que nunca entendeu como parar as subidas de Haidara na direita. Parecia que não acreditavam que ele estava a jogar a lateral-ala direito.
Desta forma, o onze de Nagelsmann entrou a voar nas faixas e marcou a diferença também no centro face ao meio-campo inglês, sem Pogba de inicio e com um duplo-pivot muito recuado e de contenção (McTominay-Matic). Faltava um nº8 ao Manchester. Deixava, assim, Bruno Fernandes perdido entrelinhas com a dupla Rashford-Grenwood a vir muito desde as faixas ficando sem nº9 (nem falso, nem verdadeiro).
Um fosso táctico entre Nagelsmann e Solskjaer que voltou a meter o RB Leipzig na elite europeia.

A equipa que é uma espécie de “face incubadora” do “futebol red bull” caiu na Áustria mas é obrigatório despedir com respeito o Salzburg. Um onze que é como um “embrião de talentos”, resultado duma prospecção que atravessa diferentes territórios de futebol.
Com uma estrutura sub-23, orientado por Jesse Marsch, joga um futebol solto ofensivamente em posse de bola, rápido na construção defesa-ataque com passes progressivos” sem lateralizar excessivamente o jogo para além do necessário para descobrir o melhor corredor para avançar.
Contra o At. Madrid, partindo da clássica defesa a “4”, onde está um belo lateral-direito, o dinamarquês Kristenssen (23 anos) e o forte central Wober (22) lançou a variante do seu 4x4x2 em losango e, sem o titular nº6 Camara (20), colocou como pivot Junuzovic, o seu jogador mais experiente (33 anos, o “avô táctico” austríaco do onze) que é origem médio-ofensivo ou nº8.

A partir deste estilo, a equipa encostou atrás o At. Madrid (que jogava com a vantagem do empate, algo que faz estrategicamente o “paraíso tático” de contenção e contra-ataque de Simeone). Abertos nas alas, Mwepu (22) e o craque prematuro húngaro Szoboslai (20) vindo da esquerda em diagonais. No meio, Berisha (22), um alemão de origem albanesa, com muito golo, que pensa o jogo mais como avançado, no apoio á dupla de pontas-de-lança Daka (22) e Koita (21) que se traduzem em dois avançados móveis de velocidade e profundidade.
Criou muitas oportunidades, empolgou, mas o “barco-pirata” de Simeone voltou a surgir e em dois contra-ataques ganhou o jogo. Fim de sonho.

Interessante ver, na aposta de prospecção em jovens talentos do RB Salzburg, a preferência pelos jogadores do Mali a da Zâmbia: Camara (médio maliano nº6), Mwepu (extremo zambiano), Koita e Daka (a dupla atacante que junta, respectivamente, Mali e Zâmbia).
Na base está a aposta no talento africano. Detectá-lo cedo, potenciá-lo ainda em idade de formação e limá-los depois gradualmente no nível competitivo sénior já com outras bases de conhecimento do jogo (para além do trabalho físico). Aproveitar a criatividade com ginga de drible e mobilidade veloz que a natureza dá desde a origem a estes jogadores traduz-se, depois, num trabalho fascinante de “maturação do talento”.
Por isso, esta injeção de dinheiro da Red Bull no futebol internacional (que também está nos EUA e no Brasil, no Bragantino desde esta época) tem de ser vista de forma diferente de outras meramente “beduínas e comercias”. Em Salzburg e Leipzig (de onde saíram Sadio Mané e Haaland) há ideias e (tendo ao mesmo tempo visão lucrativa-empresarial) sabem distinguir o que é apostar no futebol.