O meu futebol: Memórias de guarda-redes

03 de Novembro de 2019

A minha primeira relação com esses homens que via quase como que vivendo “à margem da equipa” foi de admiração e incompreensão. Admiração pelas defesas que faziam e salvavam as equipas de perder o jogo. Incompreensão porque não entendia o destino tão cruel de, após sofrer um golo, ir buscar a bola ao fundo da baliza como que cumprindo uma pena de culpa.

Cresci a ouvir como o Tibi –que tantas grandes defesas fez- tinha de cumprir esse destino até se tornar frase que nós miúdos repetíamos na rua ao colega mártir que estava na baliza (ou entre duas pedras).

Não fui a tempo de ver o Azevedo, Costa Pereira, Américo, José Henrique “Zé Gato”. Os guarda-redes, postura e aparência, que me provocaram primeiros impactos foram o Damas e o Bento. E que diferentes eles eram.

Há coisas que não se explicam. A primeira “grande defesa” que vi o Damas fazer foi com o... jogo terminado. Foi numa remota noite a preto-e-branco de 74, jogávamos em Inglaterra e aguentávamos o 0-0 até ao limite do sofrimento. O Damas já tinha feito na primeira parte talvez a melhor defesa da sua vida (e das melhores de todos os tempos, revejam na “torre do tombo do youtube”), mas isso só recordei vendo o resumo adulto. O que lembro é quando, já após o minuto 90, Damas ia bater um pontapé de baliza, demorou um pouco, o árbitro apitou para o fim do jogo e, num impulso de alegria pelo resultado, ele atirou-se em voo sobre a bola parada na quina da pequena área à espera do pontapé forte. E festejou. Espetáculo. Nunca mais me saiu da cabeça.

Ele foi, confesso, o guarda-redes que mais admirava (e invejava) pelo estilo galã, cabelo com brilhantina que punha mais nos jogos europeus, à noite, classe a andar na baliza, a voar para as bolas numa beleza que o faz equiparar, ao tempo, a Vítor Baía, que Valdano imortalizou numa frase quando, em Espanha, disse que: “ninguém sofre golos com tanta elegância como ele”. Porque também para isso é preciso ser grande. Damas e Baía viveram em tempos diferentes, mas os estilos eram ambos hipnotizadores.

O Bento era o oposto. Em condições físicas normais nem devia ser guarda-redes. Era um 1, 73m. a pular, saltar, voar para a bola com uma agilidade e velocidade impressionante. Cabelo desgrenhado, meio entroncado, bigodão, a berrar com defesas, esbracejando, e a defender tudo. Em rigor, até nunca defendeu uma bola, porque o que ele verdadeiramente fazia quando se elas aproximavam com perigo da sua baliza era “atacar a bola” e agarrá-la.

Reconheço a qualidade admirável, mas os estrangeiros que marcaram as nossas balizas nas últimas três décadas já não provocam o mesmo encanto e imaginário. Será da minha idade (de como os vejo), claro.

O FC Porto campeão Europeu de 87 teve um guarda-redes que parecia feito de gelo. Um iceberg com braços que agarrava as bolas com eficácia total mas sem ponta de emoção. O polaco Młynarczyk, puro produto emocional do futebol de leste. Não esqueço, porém, que quem começou a campanha foi o Zé Beto, o oposto no temperamento, entre o guarda-redes meio-louco e utópica promessa de ser o melhor do mundo.

A verdade é que, por razões de fase final da carreira ou outros acasos, os nossos relvados tiveram três dos melhores do mundo nas últimas décadas: Preud'homme, no Benfica (o melhor de sempre a cair sobre a bola, aquele que, confesso, sempre vi como o mais completo); Schmeichel, no Sporting (polvo louco escandinavo, com defesas quase de andebol e nariz vermelho de gritar, luvas gigantes para defesas impossíveis) até, claro, Casillas (o guarda-redes moderno pop-star, defesas mágicas e instagram, encarando avançados isolados para defender com a ponta da luva ou bota salvando o golo, ou a tirar uma foto sentado a ver os meninos da Ribeira e Foz a mergulhar no rio ou mar).

Todos eles são feitos de outra matéria, mas... não vivem à margem da equipa. Pelo contrário. Como disse Zoff, “eles impregnam de personalidade toda a equipa”.