O meu futebol: O Folha o Dino e o Cruyff do Oriental

08 de Maio de 2019

Se não tivessem ficado jornais velhos e algumas imagens, até pensava que tudo não tinha passado da minha imaginação, normal quando se é pequeno ou se está a crescer. Posso juntar registos exatos da época, mas acho que isso não ajuda nada. Até confunde e desvirtua como gosto de lembrar as coisas (não como, tantas vezes, aconteceram mesmo). Com jogadores de futebol isso é normal e saudável.

Se a lenda (na nossa memória ou popular) se tornou maior que o jogador, pois que permaneça a lenda. São “memórias de atmosferas”.

Era muito miúdo e ouvia falar no Cruyff. O mago holandês e outro. Mas, havia outro? Sim, havia e perto. Estranhamente num pelado. Era o tempo do velho Oriental na I Divisão (em 75) e então tinha um jogador que se destacava, o Quim. Chamavam-lhe o... “Cruyff de Marvila”. Essa fabulosa alcunha vinha das incríveis semelhanças físicas, face e estilo que existiam entre os dois. As fotos do tempo confirmam. Jogava a extremo.

Cada jogo do Oriental era uma guerra para evitar a descida e, em ambientes de “vida ou morte”, o talento do “Cruyff de Marvila” decrescia. Tinha um futebol diferente, não se metia muito em choques, mas mesmo em pelados, onde para dominar uma bola quase fazia falta atá-la com uma corda, o nosso “Cruyff” fazia dela o que queria. Noutros palcos, noutro tempo, teria deixado marcas no nosso futebol.

Fui perdendo o seu rasto. A última vez que ouvi o seu nome em destaque como jogador foi por 80/81, quando então o Sacavenense, da II Divisão, defrontou e eliminou o V .Guimarães (2-1) na Taça de Portugal, guiado pelo saber de um esquerdino de classe. Era uma das suas últimas aparições, mago mesmo sem pisar relvados de Amsterdão. Ficou a estética de “Cruyff no pelado de Marvila”.

Via-o jogar, desengonçado e achava que a qualquer momento ele ia desfazer-se ou saltarem-lhe peças, um braço ou umas pernas longas e meio arqueadas. Era como se fosse um “autómato da favela”. O Dino! Um avançado que tinha feito golos no Santos do Chico Formiga e viera para Portugal para o Nacional e depois no Beira-Mar.

Estávamos no inicio dos anos 90. Cada contra-ataque era uma aventura com ele. Bola para a frente e o Dino inventava o que parecia fisicamente impossível. Fintava o adversário, os colegas, o público e ele próprio. E era muito rápido. Corria como um pássaro exótico gigante e fazia golos no fim dessas “jogadas malucas”.

Adorava vê-lo jogar mas nunca percebi nada do que ele fazia. Ainda hoje penso nele como o protótipo do jogador que nunca compraria para uma equipa minha, mas que também seria o último avançado que eu quereria que jogasse contra a minha equipa! Melhor só ficar a vê-lo noutros jogos. Não voltei a ver nada parecido. Também é natural. Não existe.

A forma de festejar os golos terá sido o que mais cativava, hipnotizava quase, mas ele também jogava muito na frente. Rápido, a fugir aos defesas e rematar na corrida que continuava depois de marcar para dar um salto mortal no ar e ficar logo imediatamente de pé a festejar. Era o Folha, nascido ainda na aura dos “bebés do Leixões”, mas que iria atingir o seu auge de cambalhotas no Boavista. Ainda foi ao Benfica um ano mas não deu. Pouco jogou.

Aqui há uns anos ainda estive com ele nas ruas de Matosinhos. Impecável. Agora acho que vive em Inglaterra. Fez parte de um tempo em que o Boavista e Leixões, como o Salgueiros, eram forças do futebol da “grande cidade portuense” e onde estes derbys eram escaldantes. Perdeu-se esse futebol, esses grandes jogos de “ruas contra ruas”.

O Porto desse tempo era diferente, mais “cinzento puro” pelo nevoeiro, cheio de cerimónias e acontecimentos em casa, até que havia... futebol! E então as ruas enchiam-se, íamos de eléctrico para todo o lado ou então a pé (nem que fosse nas traseiras de um autocarro de dois andares).