O meu futebol: Serginho! Brasil 82 e Marítimo: explicar o impossivel

06 de Julho de 2019

Posso viver mil anos que nunca existirá equipa que crie tanta admiração. Toda a geração que os viu sente o mesmo e prova que não foi alucinação minha. O “jogar bonito”, com a bola a viajar de pé para pé e golos lindos. Foi o Brasil de 82, o último Mundial da era romântica.

Sócrates, Zico, Falcão, Júnior, Cerezo, Éder, até o Paulo Isidoro (espécie de pássaro exótico em forma de jogador de futebol), que entrava nas segundas-partes, todos nos faziam ver os jogos da mesma forma, como anos antes ouvíamos contos para crianças com personagens inverosímeis. Mesmo as que pareciam fazer menos sentido como o nº9 desengonçado que ninguém entendia como não jogava outro: Serginho. No meio de tantos tecnicistas, ele era a ironia desengonçada onde a bola batia e fugia. Quase parecia de propósito para meter um traço profundamente disparatado naquela bela história de futebol de técnica açucarada.

No jogo com a Itália ele isola-se na área, tem tudo para o golo e remata “mordido” entre o pé e a canela, estilo “pontapé à Charlot”, que faz a bola sair ao lado aos trambolhões.

Ainda hoje, ao lembrar esse lance, recordo mais a imagem, cara e gesto do Zico junto a ele, incrédulo e condescendente a dizer-lhe com as mãos que era só ter levado a bola mais um pouquinho para a frente e rematar com calma. Mas como explicar isso àquele “anti-heroi” Serginho?

Era impossível, dizia-se, que o Brasil não tivesse outro avançado-centro melhor no seu país. Tinha, claro (na era do Roberto Dinamite e do nascimento do Careca), mas a verdade é que o Serginho, no Brasil, no campeonato paulista, nem era visto como esse nº9 torpe. Ele era “fera”. Fazia muitos golos, encarava todos os defesas, ganhava lutas e surgia sempre nos golos decisivos, muitos quase impossíveis com as suas longas pernas de homem-borracha ou aranha.

No Mundial, porém, deixava de fazer sentido porque aquilo era um poema de equipa. Telê Santana imaginou que ele podia ser o elo de “encostar para o golo” que ia completar o sonho de técnica atrás. Não foi.

Mas o que me fez lembrar dele agora para estas memórias relacionadas com o nosso futebol é que, alguns anos depois, esse Serginho surgiu a meio da época, em 87, para jogar em Portugal, no Marítimo. Como? Não sei. Tinha quase 35 anos mas isso tudo bem, o perturbante era a recordação de 82.

Fiel ao seu estilo e personalidade, surgiu pesadão e a jogar a passo, mas lembro que no primeiro jogo num tempo em que só víamos à noite resumos de três minutos, fiquei atónito ao vê-lo marcar dois ou três livres do meio da rua”, a uns 40 metros (sem exagero), que foram bombas para o guarda-redes da Académica, marcando um golo que deu a vitória. No resto do tempo, porém, andou a passear em campo.

O treinador, então o polémico Manuel Oliveira, não gostou nada e... nem o convocou para o jogo seguinte. Falava-se que até tinha havido murro entre os dois num treino, mas o Manuel Oliveira não cedia “se quisesse trabalhar até podia ficar, assim é melhor voltar já ao Brasil”.

Ficou mais uns tempos e sempre no mesmo estilo lá voltou a jogar, porque o Marítimo lutava desesperadamente por não descer e os adeptos queriam-no em campo. Ainda recordo de o ver (a andar) em Alvalade e falhar um golo isolado (rematou contra o Damas e perderam 6-1). No total, o Serginho faria cinco jogos e quatro golos! Lá está, com a bola por perto era fera mesmo sem ligar nada ao jogo. E o Marítimo salvou-se.

Continua até hoje a ser um ídolo da torcida do São Paulo e no Brasil a sua participação no Mundial 82 nem é assim tão criticada. Atacam mais o Júnior por não ter saído do poste num canto e o Cerezo por ter feito um passe errado que isolou o Paolo Rossi. A lenda do Serginho, essa, permanece.

Anda há pouco esteve, interino, a treinar o Santos, e na conferência, no fim do jogo, após empate em casa, explicou sabiamente tudo o que se passara. “O que falhou? Oh, futebol é bola na rede. assim não dá!”.