O Setubal de Couceiro

01 de Novembro de 2004

O Setubal de Couceiro



Esquematizado num moderno 4x2x3x1, cada vez mais o sistema de referência na maioria das equipas da actualidade, o actual Vitória de Setúbal de José Couceiro é, essencialmente, uma equipa com ordem colectiva, tacticamente disciplinada nas compensações defensivas na hora em que perde a psse da bola e que, depois, a atacar, se ilumina quando aquele pedaço de couro redondo vem ter aos pés de um brasileiro vindo 2001 de Goiâna, após várias épocas no At.Paranaense: Jorginho. Aos 27 anos, está no auge das suas capacidades, o momento certo para, com pena dos setubalenses, dar o salto para um clube de maior dimensão e fazer o seu futebol romper as fronteiras do nosso rectângulo lusitano. É mais do que um mero médio ofensivo a atravessar um excelente momento de forma. Vê-se, logo que recebe a bola, que tem futebol para encher qualquer campo.

O seu estilo concilia o perfeito domínio de bola com a coordenação de movimentos, inteligente e objectivo a desenhar as jogadas de ataque, embora, talvez levitado pelo período áureo que atravessa, por vezes se perca em excessivas iniciativas individuais. Deve soltar a bola mais rapidamente, sobretudo quando perto da área, na hora de fazer o chamado ultimo passe. Não é um jogador muito alegre a jogar. Por vezes até parece estar noutro mundo. Contra o V.Guimarães terminou um jogo com uma brilhante individual que tentou concluir quase de angulo impossível quando podia ter optado por um passe atrasado.

Acto imediato, o árbitro suou o apito final e Jorginho, em vez de festejar de imediato a subida ao primeiro lugar, ficou com um semblante carregado por ter falhado aquela oportunidade que não iria alterar o resultado final. Até nestas reacções é, assim, um brasileiro típico, daqueles para quem o futebol só faz sentido como divertimento com a bola nos pés, golos, fintas, remates, como se fosse uma pelada de rua.

O Setubal de CouceiroNo esquema de Couceiro ele é um jogador chave, nas costas do ponta de lança Meyong, muito lutador mas algo limitado com a bola nos pés e nas jogadas de um para um pelo que sozinho entre os centrais raramente poderá dar grandes dores de cabeça ao sector defensivo. Ao lado de Jorginho, na segunda linha do meio campo, abertos nas faixas, Zé Rui, á esquerda, e Manuel José, á direita, dão profundidade de jogo pelo flanco, e sabe recuar a defender quando o onze perde a posse da bola, fechando as faixas aos extremos ou alas adversários, missão no que são apoiados pelos centrais.

Á frente da defesa, entre os trincos, destaca-se, ao lado de Sandro, excelente jogador que depois de prometer muito no inicio da carreira confirma-se como um bom médio que mescla táctica e táctica, uma revelação vinda de Chaves: Ricardo Chaves. Ataca, defende, recupera, passa e remata. Uma excelente contratação vinda da II Divisão, que dá consistência colectiva a um onze que não possui uma dupla de centrais muito forte. Coloca-se bem para os cortes, mas não tem rins para travar jogadas de maior envolvimento dos avançados adversários em jogadas de triangulação rápida rente á relva. Entre este Vitória e o que também andou em primeiro há 31 anos não, nem por sombras, qualquer ponto de contacto. O de outras eras era uma equipa fabulosa que, noutro tempo e com um plantel mais vasto, poderia ter sido campeão nacional. O actual, é um onze operário, com um arquitecto artista inspirado, Jorginho, dois excelentes volantes recuados Sandr-Ricardo Chaves, um ala muito inteligente, Manuel José, e um treinador que não inventa, marca a diferença pelo seu nível cultural e vê o futebol para além da vertigem das quatro linhas. Atributos fundamentais para, sem deslumbramentos, construir um projecto futebolístico credível no futebol actual.