O temível Getafe CF de José Bordalás

10 de Setembro de 2020

Getafe FC



Antes da paragem devido ao surto da Covid 19, havia uma equipa a viver um autêntico conto de fadas e a desafiar as melhores estimativas possíveis. Após uma descida de divisão na época 2015/2016, Bordalás assumiu o comando técnico do Getafe CF, conseguindo a retoma ao principal escalão.

 

Na época de 2017/2018 realizaram uma excelente campanha, culminando com um admirável 8º lugar. No entanto, foi na temporada seguinte que conseguem a melhor prestação da história do clube após alcançarem o 5º lugar e estarem a um passo da qualificação para a Liga dos Campeões. Esta temporada estão novamente a superar as expetativas, não só na liga espanhola, como na Liga Europa! Atualmente, no 5º lugar da La Liga, em igualdade com a Real Sociedad de Fútbol e com mais um ponto que o Club Atlético de Madrid, o Getafe nem por isso tem relaxado na Liga Europa, eliminando (e sendo indubitavelmente superior!) o semifinalista  da Liga dos Campeões da temporada passada, o AFC Ajax.

O Diário AS enfatizava que uma ida ao Coliseum Alfonso Pérez (estádio do Getafe CF) é como uma “viagem ao dentista”, pela dificuldade que os adversários têm em sair de lá com uma vitória. As recentes atuações dominantes da equipa espanhola e o fantástico trabalho do seu treinador merecem a nossa atenção. Revelam uma identidade muito própria e um conjunto de jogadores que valem pela sua união e pelo enorme trabalho dentro de campo. Passemos à análise!

Jogadores mais utilizados por Bordalás esta temporada

Muitos são aqueles que têm colocado um estereótipo de equipa faltosa e com comportamentos antidesportivos para justificar o sucesso do Getafe. Esta parece-me uma visão demasiado simplista daquilo que Bordalás tem construído. O Getafe é uma equipa que alinha num sistema de 1-4-4-2 e que se destaca pelo controlo que exerce no adversário durante as partidas. Este controlo não tem a ver com posse de bola, mas sim com organização e rigor em momento defensivo e com eficiência no momento ofensivo. A sua organização defensiva, a forma como utilizam a pressão para condicionar o adversário e a qualidade nas suas transições são algumas das maiores qualidades da equipa sensação do nosso país vizinho.

4-4-2 do Getafe com zonas de maior ação dos jogadores
Fonte: Total Football Analysis

 

O Getafe é a 4ª melhor defesa do campeonato espanhol (25 golos sofridos, 0.93 por jogo), a 2ª equipa com mais recuperações de bola por partida (apenas atrás do Barcelona), a 3ª equipa que menos remates permite ao adversário e o seu guarda-redes Soría é o que tem mais jogos sem sofrer golos em igualdade com Courtois (12 jogos sem sofrer).

Em organização defensiva, é uma equipa que utiliza a estratégia como ponto forte para se ajustar ao adversário e para lhe criar problemas a nível ofensivo e, depois, a nível defensivo. O Getafe cria duas linhas de 4 atrás dos atacantes, que dificulta a penetração em espaço central por parte do adversário. É uma equipa que consegue condicionar a 1ª fase de construção adversária pela pressão intensa que exerce. Um dos dados estatísticos que evidencia a eficiência desta pressão ao adversário chama-se PPDA (passes per defensive action). O Getafe é a equipa da La Liga que menos passes certos permite ao adversário até à realização de uma ação defensiva (interceção, desarme, falta, passes bloqueados e alívios), com 7,12 passes concedidos. Outro dado estatístico que ajuda a compreender este comportamento de pressão na primeira fase é o VPPDA, que consiste nos metros de progressão vertical de cada passe do adversário. Se partirmos o VPPDA pelas duas metades do campo, vemos que o Getafe é das melhores equipas da europa (13ª) a impedir a circulação vertical no meio-campo adversário, no entanto, sente dificuldades quando esta pressão inicial é ultrapassada. A equipa de Bordalás é forte a recuperar a bola em zonas subidas, mas oferece bastante espaço quando os adversários ultrapassam as primeiras linhas de pressão. É uma equipa que vale pelo coletivo e em que todos os jogadores estão muito envolvidos na ideia do seu técnico, percebendo exatamente o que devem fazer em cada momento do jogo.

 

O Getafe é extremamente organizado e sempre intencional nos timings de saída à pressão e da orientação da mesma. Normalmente, orienta a pressão para os corredores laterais, onde o espaço é restrito. Seja de forma mais ou menos visível, a intenção de atrair o adversário para os corredores, está lá quase sempre, como podemos ver nas imagens do site Total Football Analysis.

Pressão alta | Compactação defensiva horizontal e vertical | Adversário sem soluções em espaço central
Getafe a oferecer o espaço que quer e a manipular a decisão do adversário
Corredor fechado e adversário sem linhas de passe

O Getafe é uma equipa compacta com linhas muito próximas e bem definidas. É uma equipa muito forte na ocupação dos espaços. Manipula o adversário e leva-o até espaços restritos para que a partir daí o obrigue a jogar longo ou a perder a posse.

A criação de superioridade numérica está implícita na forma como defendem. Para isto acontecer, são importantes as estruturas e ligações defensivas que se criam entre os vários jogadores. No vídeo seguinte, é bem percetível este tipo de estruturas montadas à volta do jogador adversário com bola. Estas estruturas, tal como a boa ocupação de espaços dos restantes jogadores, criam uma teia que cerca o adversário e que não lhe permite sair.

 

Uma equipa com comportamentos bem definidos e que não permite espaço em zonas centrais, mas que depois também é muito intensa na pressão junto aos corredores laterais. Os médios alas e os laterais têm um papel fundamental, pela marcação tão intensa quando a bola chega à sua zona de intervenção e pelo conhecimento tático que evidenciam. São os médios alas que equilibram a equipa quando a bola está no lado oposto do campo. Nesse caso, o médio ala fecha por dentro, forma uma linha com o médio defensivo e intervém de imediato em caso de basculação (intercetando ou desenvolvendo uma pressão intensa). Além disso, os médios alas têm um papel de contributo defensivo assinalável, chegando em caso de desposicionamento do lateral a cobrir o espaço do mesmo. Os próprios laterais, normalmente fazem marcação ao homem que pisa o seu espaço, e a partir do momento em que esse homem tenha a bola, pressionam-no de forma extremamente agressiva, chegando mesmo a desposicionar-se em alguns momentos (principalmente quando a equipa pressiona alto). Pelo facto de os médios alas serem defesas laterais de origem, têm conhecimento tático, que aliado ao comprometimento defensivo, torna esta equipa muito forte a defender nos corredores laterais.

Trocas posicionais e compensações entre médios alas e laterais em momento defensivo
Fonte: Total Football Analysis

Também os médios centros têm um papel fundamental na pressão e no comprometimento da primeira fase de construção. Maksimovic, normalmente adianta-se no terreno para pressionar em cima, tendo sempre especial atenção ao trinco do adversário. Enquanto isso, Arrambarri tem a capacidade física e mental para ocupar uma área mais ampla no espaço central, sempre com a ajuda dos médios alas que, por várias vezes, fecham por dentro. Arrambarri é o coração desta equipa, o verdadeiro ponto de equilíbrio do Getafe.

Getafe organizado no seu 4-4-2 em bloco médio | Portador da bola sujeito a pressão intensa | Superioridade numérica no corredor central

 

Quando a equipa defende em bloco médio ou em bloco baixo, torna-se praticamente impenetrável. Sempre com linhas muito próximas, com a linha defensiva subida, com uma boa noção de compensações no espaço central (por parte do médio Arrambarri, que por vezes se junta aos defesas centrais) e lateral (por parte dos médios alas ou médios centro) e com uma coordenação entre a linha média, linha defensiva e guarda-redes eficaz. Juntamente, com a capacidade de perceção espacial e de atração do adversário para zonas fechadas, o Getafe consegue ter uma taxa de sucesso na eliminação das jogadas do adversário a rondar os 90 % (ou seja, 90% dos ataques do adversário são parados por ações defensivas da equipa espanhola). Além disso, os jogadores são muito fortes na leitura de indicadores de pressão, percebendo os momentos em que devem subir para pressionar (adversário de costas, passe recuado, bola coberta...) e quando devem descer (ameaça de passe longo na profundidade, passe vertical para espaço entre-linhas, avanço no terreno do adversário...).

Getafe a defender em bloco baixo | Estrutura compacta e organizada
Estrutura defensiva compacta em 4-4-2

O Getafe é a equipa da La Liga que mais adianta a sua linha defensiva. O controlo da profundidade é um dos seus pontos fortes, não só pelo forte condicionamento ao portador da bola por parte dos jogadores mais avançados, como pela coordenação da linha defensiva e capacidade de colocação dos apoios de forma correta. Neste aspeto, destaca-se Djené, um central do Togo, que está preparado para dar o salto na carreira. Djené é o comandante da linha defensiva e tem um conhecimento tático do jogo que conciliado com a velocidade e desarme, tornam-no num dos melhores centrais a atuar na liga espanhola. Apesar de não ser um jogador alto (1,78 metros) tem um bom jogo aéreo (derivado da excelente impulsão), tal como o outro central (Etxeíta).

Da Defesa para o Ataque

 “Há duas coisas muito importantes numa transição defensiva! Primeiro a reação à perda (se a equipa vai para trás ou para a zona da bola) e segundo a preparação à perda da bola, que é tão ou mais importante que a reação à perda” - Nuno Campos

Os momentos de transição são a principal arma do Getafe. Como foi referido, a equipa espanhola exerce uma pressão forte em organização defensiva, mas também, no momento após perda de posse o Getafe tem uma reação rápida e intensa, conseguindo colocar vários jogadores em redor do portador da bola e recuperá-la num curto intervalo de tempo. O momento de preparação para a perda é essencial para esta reação tão incisiva e espontânea. Normalmente, o Getafe coloca 4 jogadores mais posicionais (2 centrais, um dos laterais e um dos médios) e os restantes jogadores sempre ligados e em espaços próximos. Esta compactação ofensiva e posicionamento a preparar transição defensiva é o que permite ao Getafe passar de uma situação de defesa para uma oportunidade de ataque num curto intervalo de tempo.

Depois de recuperar a posse, a equipa consegue contra-atacar com várias unidades e, normalmente cria perigo ao adversário. Apesar de ser verdade que é no momento de transição ofensiva que perde várias vezes a bola, não é menos verdade que é o momento em que a equipa espanhola corre mais riscos. Os avançados são a referência para combinação e têm a capacidade de segurar a bola e esperar pela melhor solução. É uma equipa que aposta muito no ataque à profundidade, principalmente através dos médios alas e avançados. Um dos movimentos típicos após o ganho da bola é uma combinação rápida entre um dos avançados e um médio centro, com um dos médios alas a fazer uma diagonal nas costas da defesa adversária. O excelente entendimento entre os dois avançados também lhes permite trocar tarefas entre servir em apoio e atacar a profundidade. O passe longo e o cruzamento são outros dos argumentos fortes da equipa espanhola. Os avançados são fisicamente fortes e têm uma excelente capacidade, tanto de aproveitar a profundidade, como de ganhar no jogo aéreo.

Os médios são importantíssimos no momento de transição, não só pela pressão intensa que exercem, como pela assertividade na ligação com o ataque. Em transição, os primeiros passes são essenciais para criar desequilíbrio no adversário, e estes cumprem esta tarefa com primor. Outro aspeto importante, reside no facto de, ao recuperar a bola, a equipa ter plena noção se deverá apostar em passe vertical e atacar o adversário quando este se encontra desorganizado, ou se deve temporizar e preparar um ataque mais elaborado.

Jogar com as possibilidades – Dinâmicas em Momento Ofensivo

Para termos uma noção mais exata de como funciona o momento ofensivo do Getafe, trouxe alguns dados da liga espanhola que poderão parecer um tão pouco incoerentes. O Getafe é a 2ª equipa que mais passes falha (63,5 passes falhados por jogo), apenas realiza 3,59 remates por jogo, é a 2ª equipa com menos passes completos por jogo (155 passes por jogo). Por outro lado, é a 2ª equipa com mais ações no último terço do adversário, é a equipa que menos ações permite no seu último terço e a que mais passes verticais executa. A estatística ajuda a perceber o comportamento ofensivo da equipa comandada por Bordalás. O Getafe é uma equipa que não se expõe a riscos, dessa maneira, o passe longo ou o jogo de corredores são os comportamentos mais frequentes. Apostam num jogo objetivo e vertical, fugindo daquilo que vem sido hábito de ver em Espanha, com um futebol, nomeadamente de posse. Após a chegada a zonas de criação, o Getafe consegue que a bola fique durante longos períodos de tempo nessa mesma zona, não só por ter uma variabilidade tática a nível ofensivo interessante, mas, principalmente, pelo pressing que desenvolve quando perde a posse. O momento ofensivo da equipa de Bordalás tem o objetivo primordial de chegada a zonas de criação (e por lá se manter o máximo de tempo possível) e a partir daí atacar e contra-atacar sucessivamente.

“Qual o sentido de fazer 30 toques na 1ª metade do campo sem avançar? As pessoas começaram a confundir posse prolongada com bom futebol!” - Bordalás

O momento ofensivo do Getafe não é esteticamente o mais admirável, mas é o que lhe permite chegar com maior qualidade à baliza adversária. Teoricamente, quando olhamos para o onze do Getafe, vemos apenas 2 jogadores ofensivos, os quais não são os mais habilitados para um futebol de posse (falo dos dois avançados). Com dois médios alas que são laterais de origem e com um duplo pivô que tem sobretudo tarefas defensivas, o Getafe é uma equipa que prefere não arriscar numa construção de jogo mais pensada. Mesmo assim, têm determinadas dinâmicas muito interessantes que lhes permitem ser muito perigosos quando a bola chega a zonas de criação.

“Numa equipa que pretende ser forte ofensivamente, são fundamentais as relações de apoio simples que se criam para que o jogo se desenvolva. É necessário desenvolver figuras geométricas constantes (triângulos, losangos, quadrados...) para criar linhas de passe.” - Fernando Valente

O facto de ser a equipa com menor percentagem de ações no seu último terço e ser a 2ª equipa que mais pisa o último terço adversário diz muito da entidade do Getafe. Normalmente, a equipa espanhola deixa de parte a construção de jogo elaborada. Praticamente nunca o faz! O passe longo para as duas referências da frente de ataque é uma das opções mais requisitadas. Outra é a procura por um jogo de corredores com associações e ligações entre lateral, extremo, médio centro e avançado.

Microestrutura formada no corredor direito do Getafe

A equipa do Getafe é forte a partir do momento em que a bola chega a zonas de criação. Não só porque a sua organização lhe permite preparar o momento de reação à perda de forma eficaz, como tem movimentações e presença suficiente para causar estragos. É uma equipa, nomeadamente eficiente no momento em que tem bola e que sabe exatamente o que tem de fazer para ferir o adversário. Tenta chegar a situações de finalização muito rapidamente, utilizando os avançados e os extremos como peças-chave para garantir o desequilíbrio do adversário. Cucurella e Mata são dois jogadores importantíssimos por motivos diferentes. Cucurella tem intensidade e rotatividade altíssima, e além disso, consegue ter qualidade técnica e discernimento, tanto para combinar, como para se movimentar nos timings corretos e atacar as costas da defesa adversária. Mata é fundamental por defensivamente ser incansável, pela capacidade que tem de jogar em apoio frontal, pela agressividade que tem no ataque ao espaço e pelo faro de golo. Por outro lado, o veterano Molina tem uma capacidade de servir em apoio frontal acima da média. Além disso, pela sua capacidade física, consegue ultrapassar adversários e ganhar duelos individuais com facilidade. Esta tripla de ataque é fundamental em momento ofensivo. O que têm em comum? Inteligência que lhe permite perceber o papel de cada um no coletivo. Ficam algumas das principais dinâmicas em momento ofensivo do Getafe:

- Defesas centrais apostam sobretudo no passe longo para os avançados ou extremos receberem em apoio ou no espaço nas costas da defesa;

- Subida de um dos laterais (dependente do lado onde o ataque decorre) e trocas posicionais com o extremo;

- Ala do lado contrário fecha em espaço interior para preparar possível transição defensiva;

- Médios com funções de equilíbrio, de variações de flanco e de aparecimento em zonas de finalização;

- Avançados com dupla função de se movimentarem em apoio e em profundidade/largura (normalmente a explorarem espaço entre lateral e central);

- Extremo com movimentos apoio no espaço interior, a aparecer em largura no corredor ou com movimentos em rutura a explorar a profundidade;

- Preferência pelos corredores laterais;

- Microestruturas de avançado centro, médio ala, lateral e médio centro formadas para múltiplas linhas de passe e criação de espaços na defensiva adversária;

- Laterais ofensivos sempre a procurar criar desequilíbrios através de combinações e desmarcações;

- Cruzamento como gesto mais facultado;

- Aproximação de um dos médios (quase sempre Maksimovic), do ala do lado contrário e dos dois avançados a zonas de finalização.

O Getafe de Bordalás é uma equipa com uma identidade muito própria e a fugir do protótipo normal de equipa espanhola. Impossível não dar todo o mérito ao treinador de 56 anos, não só pelos resultados que tem obtido, como pela forma como conseguiu formar um coletivo tão forte, em que todos os jogadores estão entrosados, sintonizados e identificados com as ideias do técnico.

Por Diogo Coelho "Pensar o Jogo"