O titulo da Fórmula Lage-Félix

05 de Maio de 2019

 Como se, antes de ir jogar, a mãe ainda lhe dissesse para não voltar tarde a casa quando anoitecer, á hora do jantar!

Foi um jogo feito só “assinar um documento”. A conquista do titulo, “negociado” em muitos jogos, golos fantásticos, casos, mudança de treinador, de sistema táctico, de jogadores mais importantes no onze-base e até transformações de dinâmicas de grupo e estado de ânimo, tinham sido “negociadas” a meio da época quando tudo isso parecia perdido.

A reconquista do Benfica foi, antes do campeonato em si, uma reconquista de... si próprio durante a época, já indo esta adiantada e com atraso pontual considerável (fosso de sete/oito pontos). Claro que, para isso, foi necessário, simultaneamente, o FC Porto tirar o pé do acelerador dessa vantagem, perder pontos e o decisivo confronto direto.

Em todo aquele percurso de metamorfose houve uma equipa sem medo de ter a bola para atacar, embora, metendo agora análise táctica, com insegurança de não a ter para defender. Por isso, a perda de controlo de alguns jogos aconteceu sempre quando tentou uma “gestão de controlo” para precaver problemas defensivos e eles, dessa forma, pelo contrário, só aumentavam. Quando atacava, na fórmula “a bola é minha” eles desapareciam porque não tinha necessidade do tal plano táctico obrigacionista mais conservador.

2.

Até o primeiro quarto de hora com o Santa Clara mostrou isso. A equipa sentiu a moldura eufórica do Estádio ávido de estourar rolhas de garrafa de champanhe e, por momento, ficou a olhar e a pensar. Nesses período o onze açoriano fez boas jogadas, o primeira lance de ataque perigoso, o primeiro remate, o primeiro suspiro até que, de repente, Samaris descobriu a equipa como a equipa (Lage) o redescobrira a ele durante a época, e fez um passe milimétrico por cima de toda a defesa do Santa Clara que colocou a bola na zona de Seferovic (domínio, rotação, remate, golo, rolhas de champanhe disparadas). A partir dai, assinatura do titulo consumada e mais golos. 

3.

As histórias de um campeonato que me pareceu mais longo (outra ilusão) do que os outros merecem análise mais profunda. É tentador e sedutoramente engraçado meter um miúdo despenteado ainda franzino e com cabelo de cartoon insolente (dos que fogem de casa e trepam árvores) como principal protagonista do titulo. É assim que vejo João Félix nos jogos. Como se, antes de ir jogar, a mãe ainda lhe dissesse para não chegar tarde a casa e voltar quando anoitecer, á hora do jantar. Acho que na forma dele jogar está a mesma essência mas no festejo dos golos (quer numa goleada na Luz como no empate no Dragão) está a de um adulto precoce que não tem medo de nada, derrapando de joelhos, braços cruzados, encarando bancadas, eufórica ou vociferando: “Que estavam a dizer mesmo?”