O “Urubu” aterrou na Luz

24 de Agosto de 2019

O Benfica não se preparou para reagir á adversidade, nem mental, nem tacticamente. Desde cedo sentiu-se que o Porto ia ganhar 

Os jogos decidem-se no relvado, com a bola nos pés dos jogadores, mas começam a ganhar-se (ou perder-se) antes com a mente na cabeça dos treinadores. São eles que traçam o plano de ação (modelo e/ou estratégia) e, sobretudo, reação (o que fazer se, em campo, esse plano, no sempre lado improvável do jogo, passa a correr bem ou mal).

Embalado pelo “berço dos elogios” o Benfica ativou o seu modelo (e mobilidade preferencial de princípios do sistema) em “piloto automático”. A teoria dos estímulos e da confiança (em excesso ou como motor motivacional) pode explicar o lado mental de como as equipas entraram no jogo e reagiram emocionalmente ao seu primeiro impacto. O FC Porto com serenidade. O Benfica com ansiedade a meio da primeira parte como se faltasse cinco minutos para acabar.

Via-se na reação dos jogadores (sobretudo Pizzi, o motor mais nervoso quando deve ser o tacticamente mais lúcido) e via-se na forma de jogar, com passes longos a buscar profundidade imediata, porque sentia que a pressão e coberturas portistas a meio-campo (no centro do jogo e terreno) lhe retiravam espaço para jogar... elaborando. A sensação que deu foi clara: o Benfica não estava preparado para reagir á adversidade, nem mentalmente, nem tacticamente.

Nesse sentido, a “táctica azul do urubu” tinha tudo para tomar conta do relvado. O “urubu” Uribe, um médio caça-pressão (14 recuperações) que junto com Danilo montou a tenda estratégica de controlo (da velocidade alheia) e domínio (de ativação do ataque próprio). Os jogadores do FC Porto pareciam crescer por todos os lados mas nenhum deles vinha de debaixo da relva. Estavam lá todos desde o inicio com um sentido de “jogo posicional” (coberturas e mobilidade para criar linhas de passe criando... espaços) irrepreensível. O berço azul, ao contrário do encarnado, tinha sido abanado durante a semana e isso faz toda a diferença (fez) na forma como se prepara um jogo. E, depois, claro, se o joga (sobretudo se, de repente, o “imponderável” sucede).

3.

O FC Porto ganhou com uma clareza que não resultou de nada de novo que Conceição inventou para este jogo. Essa é a sua maior vitória (para além do simples resultado). Ganhou com a sua identidade, sistema (e princípios) preferenciais/habituais de jogo. Não ganhou por nenhuma estratégia especifica pensada para um só jogo, contra este Benfica. Meteu uma nuance ou outra, no controlo central subido e na busca do jogo por fora para “atrair” (muito bem Luiz Dias) mas não mudou nada de essencial. Só assim, ganhar um clássico destes significa três pontos mais afirmação de personalidade para capitalizar no futuro (com o modelo identitário próprio).

                                                       O óbvio “mal escondido” 

Raul de Tomas tornou-se o alvo das críticas ao jogo encarnado. São, porém, redutoras e insensíveis ao facto dele estar a jogar fora da sua posição (um nº9 a jogar como segundo-avançado) pedindo-lhe que reproduza movimentos que antes eram feitos por outros jogadores (Jonas ou Félix, cada qual no seu estilo) quando ele não tem características para isso. Teria mais Chiquinho, como tentou Lage já o jogo ia longe. É irresistível lembrar que o futebol é, em campo, um jogo de “pequenas sociedades” entre os jogadores que jogam mais próximos uns dos outros ou têm obrigação de combinar. Seferovic-Tomas é uma dupla para jogar de perfil. Pode, em jogos menores, funcionar com um (Tomas) atrás do outro, mas não nos de exigência mais alta. Não faz sentido julgar (sumariamente) um jogador por não fazer aquilo para que não está vocacionado.  

Já em outras análises por aqui falei do que acho as debilidades de transição defensiva do Benfica que depois se reflectem na organização recuada que falha muitas vezes o reposicionamento certo. Já tinha sido nos jogos anteriores. Foi, claro, mais evidente conta o adversário mais forte. Um problema do processo colectivo aplicado a estes jogadores.

Marega “Dupla-acção”

Duas vezes isolado com o guarda-redes. Correndo com a bola, profundidade ganha, com tempo para pensar. Na primeira, desastrado, atirou ao lado. Na segunda, preciso, bateu no poste e entrou. O mais curioso? Em ambas reagiu igual. Sereno, sem exuberância. Coçando ou apontando a cabeça. “Bang Marega” das duas vezes!