“Olá, Mister!” Escutar o silêncio

09 de Setembro de 2008

“Olá, Mister!” Escutar o silêncio

Os argentinos estão na moda no nosso futebol. Ainda bem. As suas viagens pelo interior do jogo, na relva jogando, como fora dele pensando, sempre foram pérolas para quem gosta de futebol. “Porque as pessoas nascem, naturalmente, com uma determinada vocação e é ela que lhe abre as portas do seu próprio destino. Muitas vezes surgem as vitórias. Noutras, os fracassos. Há equipas que fazem treinadores e há treinadores que fazem equipas”. Leio estas palavras num livro actual que encontrei recentemente como um velho tesouro escrito por um treinador argentino trota-mundos: Alejandro Scopelli, um sábio do futebol que passou os seus ensinamentos ao papel em duas obras com o mesmo nome: Olá Mister!

O primeiro em 1958, a outro em 1970. Conta quem o conheceu que o homem tinha um pouco de tudo. Mestre, pai e companheiro. Sabia de jogadores, sabia de homens e, por isso…sabia de futebol. Dizem que, nos estágios, até os ensinou a beber uísque. Não bastava bebê-lo, era preciso saber…apreciá-lo. Em pouco tempo os jogadores até já discutiam os vários travos de cada marca. Passou por Portugal pela ultima vez em 72/73 no sensacional Belenenses que levou então ao segundo lugar. Era a equipa de Freitas, Pietra, Quinito, Godinho e Gonzalez.

Nunca acreditei na teoria das novas vagas de treinadores. “O treinador encontra cada ano, novas figuras para modelar, novos directores a quem ás vezes é preciso fazer ver que a bola é redonda, novos ambientes onde tem de se impor decidido, suportando dúvidas e desprezos”, mas “nos países futebolísticos mais avançados, mantêm-se o treinador como única autoridade para dirigir e decidir. O comando único na preparação física e na direcção da equipa. A nossa vida no futebol e os cursos especializados dotam-nos de todos os elementos necessários para essa tarefa.” Scopelli escreveu estas ideias há cerca de 40 anos. Pensamentos vanguardistas numa época distante da periodização táctica.

Nas palavras de Scopelli já estava o entendimento do jogar de uma equipa como um todo não como uma mera soma das partes (táctica-fisico-mente) mas sim como uma permanente união de factores que, ao longo da época, pautam a construção desse padrão de jogo. No centro da filosofia comum: o treinador. Só controlando todas estas estradas um técnico será sempre da dita nova vaga.

Quando um treinador se perde pelo caminho da carreira é porque não inova com o passar do tempo. Porque cria trincheiras de pensamento. O futebol é um mundo aberto. Não tem por principio excluir ninguém. Os seus protagonistas devem estar receptivos a todas as tendências. Sem dogmas.

Inventar é fácil. Observar é mais difícil. O treinador vive da observação. De saber observar. Os detalhes da sua própria equipa, do adversário e…dos corredores do seu clube. Escutar os silêncios. Nas convicções encontra segurança. Nas duvidas, novos caminhos. Ambas são bases para uma interpretação de futebol argumentada, total e precisa.

São esses os eternos treinadores da nova vaga. Como Scopelli. Olá Mister!