Onze contra onze” e um jogo

04 de Abril de 2019

A coragem de “partir” o jogo para dividindo-o em... dois para evitar ter de o jogar (um terceiro) onde sabia o ir perder. .  É possível saltar a pressão, saltando o confronto colectivo?

Perante uma equipa que sabemos mais forte colectivamente, a melhor solução de principio é lançar contra ela o nosso jogador que, no confronto direto, sabemos ser mais forte no.. um-para-um. Claro que não é possível resumir 90 minutos a esse plano individual, mas é possível pensar (projetar na estratégia que contempla ao mesmo tempo o plano colectivo) que esse factor pode ser decisivo numa jogada (e no resultado do... jogo).

Por isso, Brahimi surgiu, nesse sentido, quase acima do onze-contra-onze que ousava desafiar o forte Liverpool (com dois golos de vantagem). Naturalmente, a ideia de jogo de Sérgio Conceição ia muito além de um jogador e seus desequilibrios individuais, mas as hipóteses de sucesso (e, para começar, meter medo e impacto assustador no Liverpool, começava por ai). E assim foi. Brahimi (que é natural ficar com azia no banco em face do já descrito) lançou-se, junto com a equipa, a tentar fazer essa diferença.

2.

O FC Porto entrou saltando a zona de pressão do Liverpool, esteve perto do golo (não marcou) e depois um lance no limite do VAR (o futebol que faz festejar golos minutos depois dele as acontecerem...) sofreu o golo que matou a eliminatória e a coragem de a virar a partir dessa estratégia e do factor um-para-um que tivesse depois "transfer" do individual para o colectivo. 

Muitas vezes, porém, penso o que faz Sérgio Conceição em não lançar de inicio Soares nestes jogos em que, frente a adversários ditos poderosos. É a dúvida que possa coexistir com Marega (mais “carro-de-assalto” para jogar sozinho se perante o dilema de escolher um para jogar em cunha entre centrais adversários) sem com isso, que levaria a prescindir dum avançado que também possa ser médio, Otávio, possa manter equilíbrio de compensação defensiva pós-perda da bola.

3.

A perder ao intervalo, esse “terceiro médio” saiu para Soares entrar num jogo em que face como o Liverpool “enjaula” segundos-avançados entrelinhas, a colocação do criativo mas mais “fisicamente light” Corona dificilmente encontraria um “metro-quadrado” de relva livre. 

A coragem de “partir” o jogo para dividindo-o em... dois. Isto é, manter a segurança defensivo completa e saltar a construção apoiada do meio-campo metendo a bola mais vertical-directa nos avançados. Poderia o golo surgir assim? Podia. Mas não era mesma coisa. E surgiu, no lado oposto, no muito espaço que se abriu pra três-quatro toques que são passes (ou passes que são toques) chegar ao segundo golo no latifúndio de espaço que se abriu para Salah. Tudo que se passou a seguir só prova como a Champions é um planeta muito distante da nossa terra competitiva. A todos os níveis.         

Os robots ganharam! 

A verdade desportiva (uma equipa a jogar muito e a marcar o golo da vitória no ultimo instante enlouquecendo o Estádio) e a legalidade desportiva (vendo a repetição com o microscópio do VAR no inicio da jogada há um jogador fora-de-jogo e já não há indicação de na dúvida favorecer quem ataca porque isto agora é um jogo de máquinas não de homens).

Assim se pode resumir o ultimo lance, êxtase e frustração alternados em instantes imediatos para um lado e para outro, do Manchester City-Tottenham. Os arautos da verdade, perdão, legalidade desportiva que não percebem a essência emocional-humana deste jogo têm a sua glória. Como tiveram noutros lances destas meias-finais da Champions. Penaltys, foras-de-jogo, golos, tudo que mexe num jogo de futebol. Esqueçam, não festejem golos com a emoção pura do momento. Calma. Isto agora é ciência, máquina/lances ao microscópio. Festejem ou lamentem-se minutos depois e com decoro. Bem vindos ao “futebol lab”. A verdade desportiva não é igual a legalidade desportiva. Perceber a diferença não é fácil. É preciso sentir emocionalmente o futebol. Guerra perdida.