Para além do “grito e da roda”

17 de Julho de 2020

O “improviso táctico” melhor preparado do campeonato ganhou pela forma como sabe tirar o melhor dos jogadores em diferentes sistemas

Poderá ser um dos ensinamentos mais básicos do futebol mas resume uma diferença fundamental entre os momentos principais no jogo. Para defender, preparámo-nos. Para atacar, improvisámos. Tudo estará nesta dupla-frase. Claro que atacar também necessita dum plano (de preparação para saber... improvisar) mas nesta de ordenar para defender e de desordenar... o adversário para atacar, estão as diferentes faces que uma equipa tem de saber ter conforme o que o jogo pede.

O FC Porto campeão 19/20 soube sobreviver á sua pior fase porque, mesmo nesse período nunca colocou em causa as ideias-base do seu modelo de jogo (no qual entram as metamorfoses de sistemas em pleno jogo, entre as variantes do 4x3x3 e do 4x4x2).

Contra o Sporting de Ruben Amorim, enfrentando mais uma equipa com três centrais (embora esta pela sua identidade táctica) como foi habitual na maioria dos jogos da época pela estratégia dos adversários temendo o poder ofensivo portista, Sérgio Conceição usou esse lado “camaleónico” da equipa para, desta vez, não desafiar furar esse muro defensivo com dois pontas-de-lança mas sim com mais... médios. Por isso, jogou só com um nº9 de raiz (Marega) em vez da habitual dupla (com Soares).

Desta forma, confundia os centrais leoninos que, de repente, ficavam sem ver os habituais “carros de assalto” portistas. Um “jogo de sombras” que ficava mais confuso por o nº9 solitário nem ser o que joga habitualmente mais fixo (Soares) mas sim o mais móvel, (Marega).

Assim, libertava o meio-campo: preparado para pressionar-ordenar (com Loum-Danilo) e solto para improvisar (com Otávio-Fabio Vieira), a tal dicotomia táctica “ordem construída-desordem provocada” que faz a base do futebol.

O “jogo do titulo” não teve o melhor jogador da equipa e do campeonato, Corona, mas teve o melhor mutante de sistemas, Otávio. Entre falso-ala e nº10, ele leva consigo, nessas movimentações (trocas posicionais), o sistema do 4x4x2 para o 4x3x3 (e vice-versa). Teve, também, o futebol adulto de um miúdo de 20 anos, Fábio Vieira e a “presença posicional-libertadora” de Danilo (porque segura os equilíbrios da equipa e, ao mesmo tempo, liberta os elementos mais ofensivos á sua frente).

A maioria das análises fala da marca da era-Conceição no FC Porto a partir do “grito e da roda”, mas as bases das suas conquistas estão muito para além de eventuais estados de alma. Estes são também importantes, para suportar momentos difíceis, mas no mundo futebolístico a top, são “apenas”  catalisadores das ideias de jogo e das “tácticas individuais” interpretadas (no colectivo) pelos jogadores.