Paulo Bento, as chaves do castelo de Alvalade

17 de Fevereiro de 2007

Paulo Bento, as chaves do castelo de Alvalade

A classe de Oliveira, os golos felinos de Jordão, o instinto de Manuel Fernandes. 1982. Uma grande equipa, treinada por um inglês irascível, Malcolm Alisson, dava Campeonato e Taça ao Sporting. Nos 25 anos seguintes, muitos outros treinadores passaram por Alvalade. Diferentes épocas, diferentes ideias e ciclos de poder. Apenas dois, porém, um cada qual, voltaram a ser campeões. Inácio e Boloni. Apesar da proeza, nenhum cativou por muito tempo o universo leonino. Inácio, o herói que resgatara o título após 18 anos, saiu poucas jornadas passadas da época seguinte.

Boloni que repetira o feito de Alisson acabou visto apenas como o homem que se sentou no banco na época em que Jardel marcou 42 golos. Todos os outros, muitos, saíram também com o ego deprimido. O último, Peseiro, quase uma personagem de Fellini. O Sporting fazia um golo e Peseiro logo parecia uma máquina de fazer bom futebol. O Sporting sofria um golo, e Peseiro logo passava a lírico e, teoria de fundo, sem capacidade de liderança. A cinco minutos do titulo e a 35 de ganhar a Taça UEFA.

Perdeu tudo. Agora, ano e meio depois, disse que, nessa hora, teve vontade de chorar. Era caso para isso. Paulo Bento surgiu num período de ruptura pós-Peseiro mas ainda com a nuvem Mourinho a pairar sobre o mundo dos treinadores como algo semi-divino. Bento era diferente, no que interessava. Vinha do cheiro do balneário. E era semelhante também no que interessava. Jovem e com discurso curto, grosso e vencedor. Líder.

As coisas não são, no entanto, assim tão simples. E Bento sabe disso.

Paulo Bento, as chaves do castelo de AlvaladeOs treinadores têm a força que os clubes lhe dão ou que eles próprios tem capacidade de impor. É neste segundo ponto que se distingue hoje um treinador de corpo inteiro. Bento entrou com uma aura de personalidade anti-Peseiro. No jogo, embora ambos com o 4x4x2 em losango, os seus princípios são mais conservadores defensivamente. Tem um modelo, não abdica dele e quer ganhar, ou perder, com ele. Esse é o primeiro passo para um treinador criar a sua filosofia futebolística. Há, depois, que saber «negociar» os momentos. Tacticamente, disciplinarmente e nas demais relações de bastidores. Bento sabe que já não é a referência de moda que foi no inicio. Os adeptos já se começam a mexer na bancada. O próximo passo será quando os responsáveis passarem a andar mais depressa nos corredores quando o virem ao longe. Acontece com todos. Em todos os clubes.

No banco já o vemos menos intempestivo. O olhar mais ansioso. A palavra «disciplina» é a preferida entre os adeptos. As palavras «bom futebol» só são apreciadas se acompanhadas de resultados. A palavra «ganhámos» devora tudo o resto. Bento dificilmente será campeão. O que resta, então, destes três factores? A disciplina, sim, mas isso, por si só, não suporta muito tempo um treinador. Fica aquilo que ninguém quantifica. A tal fidelidade a uma forma de estar e jogar. Questões menores para os donos do futebol actual. Quando entra num clube, um treinador entra quase numa cárcere rodeada de adeptos, directores, jogadores, empresários e até pessoas que ninguém sabe de onde saem. O segredo é ser ele a ficar sempre com as chaves dessa cárcere. Saber a altura certa de pegar nelas e entender como diria Kipling, sem pensar em futebol, que o êxito e o fracasso são dois grandes impostores.

Movimentos e princípios do modelo-Sporting

Paulo Bento, as chaves do castelo de AlvaladeConforme a posse ou não da bola, o meio-campo do Sporting adquire dinâmicas diferentes. A intenção, com bola, é ocupar melhor as faixas.

Nesse momento, os médios tendem a descair no flanco, abrindo o jogo da equipa a toda a largura do terreno, flanqueando depois a partir dessas posições, embora raramente procurem a linha A outra opção para dar profundidade pelas faixas é com a subida dos laterais, apoiados pelo médio-centro ofensivo, que então se aproximar do lateral buscando triangulações ou rupturas, caindo os avançados na área. O contrário do que sucede se for um médio ala a progredir na zona interior, altura em que os avançados descaem para a faixa, arrastando marcações e abrindo espaços de penetração para o médio em posse. Perdida a bola, esses mesmos médios, flectem no terreno para fechar em posições/zonas mais interiores e trabalhar na recuperação. É o momento do chamado pressing defensivo, recuando o bloco. Sem Liedson, jogando Djaló, os desdobramentos ataque-defesa serão diferentes, pois, sem bola, com o recuo de Djaló o meio-campo ficará muitas vezes com cinco homens, ganhando superioridade numérica nesse espaço. Recuperada a posse, Djaló ressurge nos últimos 25 metros como avançado puro.