Pepa veio para ficar

20 de Fevereiro de 2021




Ao comando do Paços de Ferreira, Pepa tem sido uma agradável surpresa que se vem confirmando sustentadamente. É um dos treinadores a ter em conta no panorama futebolístico português. Não é só pelo bom futebol que a sua equipa pratica e pelos bons resultados que tem obtido num coletivo que vai a jogo sem nunca abdicar das suas ideias não se limitando a uma luta tantas vezes vã pelo pontinho. É também pelo seu discurso forte, ambicioso e desassombrado. Uma mensagem que passa e que contrasta.

A trajetória de Pepa no futebol sustenta a crença que fiz notar no título que encabeça estas linhas.

Antigo ponta de lança, fez formação no Benfica e apareceu ainda muito jovem na equipa principal. Teve uma estreia de sonho com um golo ao Rio Ave em janeiro de 1999. Então o clube encarnado atravessava um período de grande instabilidade e a esperança das suas hostes centraram-se naquela promessa que emergia. Internacional português e campeão europeu sub-18 no mesmo ano, Pepa estava lançado. Porém, numa história tantas vezes repetida, a irreverência da juventude, a fama e a atenção de que era alvo levaram-no por caminhos pouco rigorosos. Entre folias a promessa não se cumpriu. Jogou nos belgas do Lierse antes de regressar ao Benfica. Esteve no Varzim, no Paços e no Olhanense. Sofreu com muitos problemas físicos que lhe abreviaram a carreira. Teve pubalgias, um tumor no pé, lesões graves no joelho.

Talento. Deslumbramento. Um calvário de lesões que o forçaram a abandonar o jogo aos 26 anos. Uma combinação aziaga.

Passou por dificuldades até que o Sacavenense lhe deu uma oportunidade para experimentar uma carreira de treinador. Abria-se uma porta para Pepa dar a volta ao texto. Começou por treinar crianças e foi subindo a pulso orientando escalões jovens em Sacavém e, depois, no Odivelas e no Tabueiro. Como adjunto passou por Tondela e regressou à formação do Benfica até que em 2013/2014 rumou a São João da Madeira para orientar a Sanjoanense. O seu impacto na AF Aveiro foi tremendo. Foi campeão. Seguiu para o Campeonato Nacional de Seniores. Em 2015/2016 um novo desafio. O Feirense, na Segunda Liga, apresentava-lhe um projeto aliciante, de subida. O objetivo foi conseguido e Pepa participou em grande parte dessa campanha, tendo saído em março de 2016.

Estreou-se na Primeira Liga pelo Moreirense mas seria em Tondela que teria mais tempo e espaço para se mostrar. Chegou aos beirões em janeiro de 2017 e por lá se manteve até ao final da época de 2018/2019. Conseguiu por duas vezes a manutenção e, pelo meio, levou os auriverdes à sua melhor classificação no escalão maior do futebol português, um tranquilo 11º lugar em 2017/2018. O Paços de Ferreira foi o passo seguinte num caminho árduo mas sempre ascendente.

Aos 40 anos, Pepa volta a atrair atenções, a conviver com o mediatismo. Os deuses do futebol voltaram a sorrir-lhe e o Míster vai colhendo os frutos do seu trabalho. Mais sábio pelas vivências passadas, soube reinventar-se, superar-se e arregaçar as mangas.

Independentemente dos resultados, tão determinantes na cultura futebolística nacional, Pepa já deixou a sua assinatura nestes tempos atípicos. Ousou arriscar, fazer diferente. É promotor de uma proposta de jogo e de um estilo aprazível de ver. Continuará a dar que falar.

 

Adolfo Serrão