O modelo de jogo nunca está completo

03 de Novembro de 2021




Porque Erik ten Hag ainda não está a treinar um grande clube europeu? É uma questão que tenho dificuldade em entender vendo a capacidade do treinador do Ajax em colocar a equipa, mudando os jogadores de época para época, a jogar no mesmo nível de qualidade alto em termos de relação com a bola e espaços dentro dum modelo de jogo que admite diferentes expressões.

Ou seja, na filosofia-Ten Hag, o dogma do futebol circular em posse apoiada por todo o campo que fez a tradição do jogo holandês, pode, em certos momentos, ceder a uma busca mais rápida da profundidade ou verticalização do jogo. Esta aculturação multidimensional de outros estilos faz parte do processo ideológico que imprimiu desde o primeiro dia em que (na época 17/18 vindo do Utrecht após treinar a equipa B do Bayern Munique no tempo de Guardiola) assumiu a primeira equipa do Ajax.

Na memória de todos ainda está a fantástica campanha que fez na Champions em 18/19 até às meias-finais. Então a desconstrução do mais clássico 4x3x3 marca-Ajax para um meio-campo mais versátil a partir do chamado “duplo 6” , começou por ser o toque inicial da metamorfose dinâmica do modelo mas que, em campo, pode ganhar oura vida táctica no sistema.

A razão para isso nem resulta na raiz dos princípios de jogo que o treinador incute, mas sim na liberdade responsável que dá aos jogadores (tacticamente inteligentes).

Olhando para os jogadores dessa equipa tal era evidente em De Jong (hoje no Barcelona). Ele era o patrão da equipa no meio-campo. mas em que posição exatamente, em que missão? A chave para tudo é que antes de ver características técnicas, Ten Hag vê as característica de visão de jogo de cada um dos seus jogadores. Se ele tem uma amplitude periférica superior (em relação a outros) pode assumir outros espaços na dinâmica dos princípios de jogo sem perder a referência posicional inicial no sistema.

Assim, aquele “duplo 6” tinha, na raiz, Van de Beek junto a De Jong mas, no decorrer do jogo, ambos saiam das suas “casa tácticas iniciais” e surgiam noutros espaços de habitação mas sempre numa interligação inteligente que permitia à equipa manter o equilíbrio colectivo (para todos os momentos alternados de jogo) que Hag que considera fundamental.

 Entretanto esses jogadores, pelo valor mostrado e necessidades financeira do Ajax, saíram, mas hoje pode-se ver a mesma ideia com outros jogadores criados pelo clube. O mexicano Alvarez (24 anos, detectado no América do México) e Gravenberch (19 anos, feito na Academia do Ajax). As diferentes origens desta dupla de médios diz, por si só, como o paradigma da formação mudou no Ajax.

Neste momento, no novo mundo de fronteiras abertas, o clube procura conciliar diferentes formas de criar e reinventar talento. Assim, tanto aposta no miúdo saído da formação (Gravenberch é um nº8 que pensa como nº6 no inicio de construção com uma cultura de jogo evoluída desde a origem) como vai buscar jogadores a outras paragens (Alvarez parece o clássico médio-defensivo de referencia de equilíbrio mas que sabe, sem bola, baixar como pivot de construção para entre os centrais que abrem, ou subir no terreno para lançar a transição defesa-ataque).

Em tese, as dinâmicas Alvarez-Gravenberch são, nos grandes princípios, as mesmas que existiam com De Jong-De Beek.

Para Erik ten Hag existe uma permissa base na construção da sua ideia de jogo: o processo nunca está completo. Isto é, há sempre novos princípios (ou sub-principios) para lhe incutir e cada jogador pode ter novas aptidões para fazer evoluir.

Tudo isto, claro, inserido com uma política de recrutamento que tanto vai buscar um talento brasileiro a despontar, de David Neres a Anthony, como aposta em experientes que somam conhecimento, de Tadic a Berghuis. É a noção de política de clube antes da ideia de jogo da equipa até ambas se cruzarem em campo pela mente dum treinador que vê o futebol através de múltiplos ângulos (com poder de comunicação e visão antecipada do jogo).

 

 

Como se faz o cruzamento de gerações do Ajax?

                                                                                                                                             

 

Na forma de ocupar a frente de ataque, Erik ten Hag seguiu a pista do “falso 9” que faz a escola holandesa e muitas vezes ainda surge Tadic no sentido de quem faz a posição não é o jogador mas sim o... espaço (quem “aparece”, e não quem “está”, nele). Provando como o processo nunca está completo, esta época inseriu como peça do sistema um nº9 mais clássico, Haller. A capacidade da equipa jogar em 4x3x3 (com duplo-pivot desmontável no jogo) ou em 4x4x2 losango, permanece na versatilidade de visão de jogo colectiva, mas a composição do onze revela o cruzamento de conhecimentos e fases de evolução de cada jogador.

A exibição com goleada (4-0) ao B. Dortmund mostrou isso. Na chefia da defesa, o argentino Lisandro Martinez (vindo do Defensa y Justicia, rápido e intimo com a bola) que anulou Haaland (tendo ao lado Timber (20 anos, da formação) com o mexicano Alvarez a mandar à frente da defesa. Nos laterais, outra coexistência temporal: Mazraoui (23, marroquino), à direita, e Daley Blind (31, com escola-Ajax), à esquerda.

Na frente, a finta com imaginação e remate de Antony (21, tirado do São Paulo) e as mudanças sábias de posição e ritmo (ala-centro, pausa-velocidade) de Tadic (32, na quarta época vindo do Southampton).

Por todos os sectores, eis o cruzamento entre aposta na formação e reinvenção de talento (em crescimento ou já solidificado no tempo).