Robin van Persie – Uma espécie de voador

29 de Outubro de 2020




A veia artística estava-lhe no sangue e o seu talento para a bola brotou precocemente. Aos 5 anos, Robin van Persie já jogava com as cores do Excelsior. O menino foi crescendo e confirmando o potencial que lhe vaticinavam. Saiu para o Feyenoord em meados dos anos 90. Lá completou o seu percurso formativo e começou a atuar ao mais alto nível no seu país. Na sua temporada de estreia entre os graúdos, em 2001/2002, venceu a Taça UEFA. Jogador ofensivo, van Persie teve o seu tempo de adaptação após o qual foi começando a somar cada vez mais tempo de jogo destacando-se ao ponto de chamar a atenção do selecionador holandês e de diversos clubes europeus apostados em garantirem o concurso da jovem promessa.

Em 2004 o Arsenal ganhou a corrida por Robin van Persie. Com apenas 20 anos o jovem abraçava o desafio de jogar em Inglaterra. Integrou uma equipa superiormente orientada por Arsène Wenger que acabara de ser campeã invicta. No ataque pontificavam Henry e Bergkamp pelo que ao jovem Robin cabia-lhe esperar a sua hora e ir aproveitando as oportunidades que lhe iam sendo concedidas. Versátil, poderia desempenhar qualquer papel na frente de ataque. Na sua primeira temporada venceu a Supertaça e a Taça de Inglaterra, sorvendo a magia e a mística do velhinho Highbury. Fosse no apoio a Henry ou descaído para a esquerda, Robin van Persie demonstrou ser uma opção a ter em conta.

Veloz e elegante no seu jogar, com muita qualidade técnica e uma facilidade de remate com o seu poderoso pé esquerdo, foi conquistando o seu espaço a pouco e pouco. Após a saída do francês para o Barcelona, van Persie passou a ter mais oportunidades a ponta de lança. A sua faceta artística já ia pontuando as suas exibições, colorindo-as com alguns golos de belo efeito para gáudio dos sempre exigentes adeptos dos Gunners.

Com o plantel em constante remodelação a cada temporada, van Persie foi permanecendo e ganhando cada vez mais preponderância e estatuto. Além de praticar um futebol esteticamente belo, com movimentações e gestos técnicos plenos de graciosidade, o holandês ia demonstrando ao mesmo tempo os seus dotes de goleador, tendo o faro, a frieza e a precisão necessárias para não vacilar na cara do golo. Marcado por lesões que lhe travavam o ímpeto, van Persie voltava sempre decidido a elevar o nível e demonstrar uma vez mais, a si e a todos, do que era capaz.

Em 2010, ao serviço da Laranja Mecânica, foi finalista no Mundial da África do Sul. Quando voltou ao Arsenal foi-lhe atribuída a camisola 10, tradicionalmente reservada para os maiores craques. O melhor de van Persie, contudo, ainda estava para chegar. A temporada de 2011/2012 foi soberba. Com a braçadeira de capitão no seu braço o holandês encarregou-se de elevar o espírito dos Gunners e fê-lo com muitos golos e com a classe que o caracterizava. Ajudou a colocar o Arsenal no pódio da Premier League, foi o melhor marcador da prova e foi galardoado com o prémio de Futebolista do Ano. Robin van Persie convertia-se numa lenda.

Nesse verão fez correr muita tinta com a sua mediática transferência para o Manchester United. Após uma vida no Arsenal, van Persie chegava maduro a Old Trafford. Aos 29 anos ainda procurava ser campeão da Premier League. Conseguiu-o na sua época de estreia nos Red Devils, a última orientada por Sir Alex Ferguson. O impacto do internacional holandês foi imediato. Nas temporadas seguintes a produtividade do United decaiu após uma era dourada aos comandos do mítico escocês.

Para van Persie, contudo, estava reservada a glória imortalizada num momento único de inspiração. Foi em 2014, no Mundial do Brasil. A Holanda goleou surpreendentemente a Espanha, campeã em título. Numa reedição da final do certame de 2010, Robin van Persie mergulhou de cabeça para a eternidade num gesto técnico sublime que desfeiteou Casillas. Um golo de antologia. Belíssimo, icónico, definidor do seu marcador, um executante superior. Para a posteridade.

Em 2015 o holandês, já grisalho, deixou o Manchester United e rumou ao Fenerbahçe. Esteve a bom nível em Istambul. Continuou a ser decisivo e contribuiu para o registo ofensivo da equipa. Prestigiou o clube e o campeonato turco.

Para a última etapa na carreira, em 2018 regressou a casa, ao Feyenoord, consagrado. Venceu uma Taça e uma Supertaça e pode despedir-se junto dos seus.

Um final feliz para um jogador que fez do jogo uma arte e que extravasou em muito o mero papel de fazedor de golos. Um digno e ilustre representante do belo jogo.

Adolfo Serrão - Cronista Recepção Orientada

Fotografia: EPA / Ali Haider