Rui Costa, a jangada do bom futebol

13 de Janeiro de 2007

Rui Costa, a jangada do bom futebol

As últimas épocas da carreira de um grande jogador tem um sabor especial. Começa a sentir-se a nostalgia no ar. É como chegar ás ultimas páginas de um bom livro ou aos acordes finais de uma música que nos faz sonhar. Não queremos que acabe nunca. Para o jogador é uma encruzilhada de emoções. Um epitáfio exibicional. Penso nisso ao ver Rui Costa regressar aos relvados no paraíso do Dubai. Ao mesmo tempo, recordo os últimos dias de outro grande nº10. Platini. Começa assim o seu livro A minha vida como um jogo: “Morri no dia 17 de Maio de 1987, com 32 anos…, dia em que me retirei do futebol”. Rui Costa entrou na recta final da carreira e a questão táctica ressurge. Onde encaixa melhor? Imagino Fernando Santos no avião a caminho do Dubai. Como tornar estes jogos úteis? Como impedir que deixem marcas no jogo seguinte da Liga? E, Rui Costa, como o encaixar no onze?

Em todas as opções que têm sido colocadas, surge sempre na segunda linha do meio-campo, como 10 do losango ou no centro do 4x2x3x1. O jogo começa e vê-se que a opção é um 4x3x3, mas com dois médios mais ofensivos. Rui Costa tem companhia na tal segunda linha. Karagounis ou Katsouranis.

Do sofá, vendo-o de cabeça levantada, bola colada ao pé, traçando coordenadas de jogo, volto a recordar fins de carreira de outros grandes nº10. Penso em Mathaus e, tal como sucedeu com o alemão nessa fase, imagino Rui Costa a jogar mais recuado no terreno. Platini, no último ano, também recuou no terreno, passando a pensar o jogo mais atrás do que na entrada da área adversária. Ao contrário do que possa parecer, na dinâmica típica do futebol moderno, exige-se maior trabalho de pressing defensivo a um médio quando joga na segunda linha do que na primeira, pois é decisivo impedir que o adversário saia tranquilo na transição defesa-ataque. Com isto, permite-se que as nossas linhas mais recuadas subam no terreno e, consequentemente, toda a equipa também. Caso contrário, a equipa recua.

É uma tarefa muito exigente para o actual Rui Costa. O seu futebol, ou melhor, a sua disponibilidade física para o jogo, é diferente da de anos atrás. Já custa imaginá-lo, por sistema, na entrada da área a desequilibrar ou a romper como um falso avançado. É mais fácil, com a sua superior visão de jogo e passe, vê-lo a pensar o jogo mais atrás.

Como elemento mais solto de um duplo-pivot, por exemplo ou, em 4x3x3, na dinâmica do Dubai, pegando na bola mais atrás e deixando o outro vértice do triangulo liberto para o pressing. Platini confessa que disse adeus porque já não se sentia com força para voltar a lutar por ser o número 1, o único lugar que, face ao nível atingido, devia estar em condições de chegar. Rui Costa ainda tem lugar neste Benfica, mas o habitat táctico terá de ser feito à sua medida.

O BENFICA DE RUI COSTA NO DUBAI: Novo desenho para o triangulo do meio-campo

Rui Costa, a jangada do bom futebolFrente à Lazio, o Benfica ensaiou, em 4x3x3, um novo desenho a meio campo, com o chamado triângulo invertido. Ou seja, deixa de jogar em 2x1 e passar a jogar em 1x2, só com um pivot defensivo (Petit), trinco, e soltou dois médios de segunda linha. Primeiro Karagounis-Rui Costa, depois, Katsouranis-Rui Costa, com o maestro a descair mais sobre a esquerda, mas em permutas, não o sobrecarregando com missões defensivas para a qual já não tem a disponibilidade física. No ataque, dois extremos puros nas faixas (Manu-Simão). Mas, como encaixar Miccoli neste desenho? A ponta de lança ou sobre uma faixa, como um falso extremo que mais do que procurar a linha, busca flectir para a área e surgir como segundo avançado?

Rui Costa: A carreira (Clubes, jogos e golos)

Rui Costa, a jangada do bom futebolÉPOCA - CLUBE - JOGOS - (SUPLENTE UTILIZADO) . GOLOS
1990/91 Benfica 0 /0 Fafe [Emprestado]
1991/92 Benfica 21 /4
1992/93 Benfica 23 /4
1993/94 Benfica 34 /5
1994/95 Fiorentina 31 /9
1995/96 Fiorentina 34 /4
1996/97 Fiorentina 28 /2
1997/98 Fiorentina 32 /3
1998/99 Fiorentina 31 (0) 10
1999/00 Fiorentina 29 (1) 4
2000/01 Fiorentina 28 (1) 6
2001/02 Milan 20 (2) 0
2002/03 Milan 24 (1) 0
2003/04 Milan 19 (9) 3
2004/05 Milan 15 (9) 1
2005/06 Milan 12 (13) 0
2006/07 Benfica 1 (1) 0