SIMÃO E ZÉ CARLOS: Traços, posições e gestos de bom futebol

17 de Fevereiro de 2007

SIMÃO E ZÉ CARLOS Traços, posições e gestos de bom futebol

SIMÃO: QUE POSIÇÃO DENTRO DO 4X4X2? No losango, só no centro

Tenho dificuldade em entender as duvidas tácticas que Simão suscita no actual Benfica. Na pré-época, Fernando Santos, sem saber se ele ficava ou não terá pensado: ok, se ele ficar, posso jogar em 4x3x3 (ou 4x2x3x1). Se não, vou pelo 4x4x2. Nesta indefinição táctica, está inerente a ideia de Simão ser, sobretudo, um jogador de faixa. Varia de posição, oscila o rendimento. Nos últimos dois jogos, sempre no 4x4x2 em losango, alinhou como avançado, médio-esquerdo e vértice ofensivo do meio campo. Paradoxalmente, apesar da predilecção pela faixa, é quando joga num das alas do losango que o seu jogo perde profundidade.

Uma coisa é jogar como extremo num 4x3x3, com espaço para dar verticalidade ao flanco. Outra é fazê-lo na ala do losango, onde perde, desde logo, a noção de profundidade, asfixiado exactamente no espaço entre as duas posições onde deveria jogar: extremo ou médio centro (o tal vértice ofensivo). Dentro do losango, é este o melhor lugar para Simão. Pega no jogo e, depois, com liberdade para fazer trocas posicionais com o médio-esquerdo, pode cair na faixa e entrar de fora para dentro causando desequilíbrios. Descaído para a ala, quase como um falso interior, é impossível adquirir estas dinâmicas.

ZÉ CARLOS: A IMPORTÂNCIA DO PRIMEIRO TOQUE. O segredo do bom ponta-de-lança

Últimos dez minutos, o 0-0 parecia uma fatalidade, quando Zé Carlos viu cair do céu uma bola perdida no coração da área do Parma. Sentiu a pressão do defesa italiano, resistiu à tentação de rematar logo e com um sublime toque com o peito, tirou o defesa do lance, ganhou espaço, centímetros preciosos, e, frio, bateu Bucci. Um lance perfeito para definir um bom ponta-de-lança. Inteligente e mortífero. Mais do que o remate, o que previamente caracteriza um grande goleador, é a qualidade do primeiro toque quando recebe a bola. Sem esse bem feito, raramente existe o remate. Ou melhor, se existe, não será com a mesma qualidade.

Pensem bem, e reparem como os grandes pontas-de-lança raramente rematam de primeira. Claro, se tiver de ser, rematam de qualquer maneira, mas no geral, a qualidade de recepção-primeiro toque é que é decisiva para libertar-se da marcação apertada, tirar o defesa do caminho, ganhar-lhe o espaço e o timing decisivo para, logo a seguir, num espaço curto, soltar o remate. É este o segredo que faz um grande avançado. Zé Carlos explicou-o na perfeição, com picardia, técnica e frieza. Há mais exemplos nos nossos relvados, mas este merece uma página inteira num manual de bom futebol.