Sistemas de três defesas no futebol português

09 de Setembro de 2005

Sistemas de três defesas no futebol português



No primeiro esboço feito em Portugal, Co Adriaanse afirmou claramente ser sua intenção apostar, de inicio, num ofensivo 4x3x3 com futebol pelos extremos. Fiel discípulo da escola holandesa, o novo treinador do FC Porto é, em termos de abordagem do jogo, um verdadeiro camaleão táctico, como tão bem explicou, na época passada, o seu belo AZ, uma equipa com grande cultura táctica que assumia, durante o jogo, diferentes desenhos, fruto da movimentação dos seus defesas e médios, sobretudo o médio defensivo, um elemento-chave na dinâmica do onze, que tanto fazia de trinco como de central.

Ou seja, quando a equipa tinha a posse de bola, adiantava-se para a frente da defesa como primeiro distribuidor, na zona dos trincos, ficando ai com uma linha de apenas três defesas, acompanhada da basculação interna do lateral. Quando a equipa perdia a posse de bola, de imediato recuperava o seu lugar entre os centrais, redesenhando a clássica linha de quatro defesas. O seu ponto de partida no AZ variou, no entanto, entre o 4x4x2 e o 4x3x3, visto serem sistemas de mais fácil implementação. A escola holandesa, aprendida no Ajax, parte, no entanto, dos sistemas com defesa a «3».

Nesse sentido, o plantel do FC Porto deveria ter sido montado a pensar nesse modelo de jogo, buscando jogadores que se adaptem a essas funções, tacticamente, explanado em 3x1x3x3 ou 3x1x3x1x2. Foi isto, em parte, no que toca á subida dos laterais (pois não tem nenhum jogador para fazer de central e trinco alternadamente), que Co Adriaanse tentou em Glasgow, frente ao Rangers, sem êxito.

Sistemas de três defesas no futebol portuguêsNo AZ, a dinâmica do modelo-Adriaanse, com o design 3x1x3x1x2, assentava em três defesas que se estendiam a toda a largura do terreno e basculavam defensivamente conforme a posição da bola. Nesta dinâmica, em vez dos típicos laterais ofensivos, os chamados carrilleros, jogava com alas que partiam do meio do seu meio campo. Assim, a saída de bola desde a defesa era feita por um dos defesas que descaíam para os flancos. Um sistema onde era crucial Kromkamp, destro, que fechava no centro-direita a defender e, depois, quando a equipa recuperava a bola, encostava-se ao flanco, recebia o passe do guarda redes e saia a jogar. Para esta função é crucial grande inteligência e elasticidade táctica. Por isso, Adriaanse insistiu tanto em ter Kromkamp no seu FC Porto.

Um trinco com rosto de central

Sistemas de três defesas no futebol portuguêsÁ frente da defesa, em vez de uma dupla de médios defensivos clássica, jogava com um trinco com capacidade táctica em recuar para central.

Desta forma, nunca perdia segurança defensiva, nem superioridade numérica contra equipas que jogassem com dois pontas de lança. Quem fazia esse papel era, geralmente, Lindenbergh. É difícil encontrar um jogador dessas características no futebol português. No actual FC Porto, ese jogador até poderia ser Pepe, que no Marítimo se evidenciara sobretudo como médio. No Dragão, porém, jogou sempre como central ou, no pioneiro jogo de Glasgow, como lateral-direito. O outro médio que se planta á frente da defesa era um volante transportador de bola (Landzaat), agressivo, rápido, sábio tacticamente e com boa chegada ao ataque. Poderá ser uma missão para Lucho Gonzalez ou Ibson, dependendo de quem jogar na primeira ou segunda linha do meio campo.

ANOS 80: O SPORTING DE TOSCHACK

Sistemas de três defesas no futebol portuguêsUm dos raros casos em que uma equipa portuguesa utilizou claramente um sistema de três centrais, sucedeu, em meados dos anos 80, no Sporting, com o galês Jonh Toshack. Na época de 84/85, a defesa a «3» era formada por Virgilio (ou Zezinho), Venâncio e Oceano (ou Morato), com laterais ofensivos (Carlos Xavier e Mário Jorge) e dois médios centro (Jaime Pacheco-Sousa). Um caso de aplicação polémica desse sistema surgiu, por exemplo, na Taça UEFA, quando o Sporting defrontou o Dínamo Minsk.

Depois de ganhar 2-0 em Lisboa, os leões entraram a jogar em 5x3x2, com três centrais (naquele caso: Venâncio-Zézinho-Virgilio) e aos 17 minutos já perdia por 0-2. Após esse inicio desastroso, a equipa recompôs-se e, já em 4x3x3, reequilibrou o jogo. A eliminatória seria decidida, nos penaltys, a favor do Dínamo, mas na retina ficara o confuso sistema que, neste caso, mais do que três defesas, fora antes de três centrais, e, assim, de cinco defesas, pois os laterais (Xavier-Romeu) actuavam demasiado recuados. Esta é, aliás, uma confusão que emerge muitas vezes ao analisar este tipo de modelo de jogo. Uma coisa é jogar com três defesas (3x5x2), outra é jogar com três centrais e os laterais de perfil (5x3x2), isto é, com cinco defesas. O modelo-Toshack, para além de ter sido um interessante case study táctico, nunca demonstraria, durante toda a época, consistência e dinâmica táctico-colectiva susceptível de criar raízes, nem, tão pouco, fazer escola.

Na época seguinte, porém, surgiu uma equipa a causar sensação no campeonato, jogando com três centrais e, neste caso, os laterais sempre ofensivos: o V. Guimarães de António Morais que, com a defesa a «3» (Miguel-Valério-Teixeirinha) e laterais ofensivos (Costeado-Basílio), intrometeu-se até perto do fim na luta pelo titulo, terminando em quarto lugar.

O BENFICA DE ERIKSSON (Em 1992, uma histórica vitória nas Antas)

Sistemas de três defesas no futebol portuguêsTambém o primeiro Benfica de Erikson, entre 82 e 84, ensaiou, em alguns jogos, o sistema de três defesas, mas, naquele tempo, tal resultara, sobretudo, da enorme diferença de valor que existia ente os chamados grandes e as demais equipas do campeonato português. Apercebendo-se disso, o sueco depressa entendeu que, perante adversários muito fechados, só com um avançado desterrado lá na frente, era desnecessário tantos elementos na linha defensiva, bastando, para uma cobertura eficaz, uma linha basculante de três defesas (Pietra-Humberto-Álvaro) que se movimentasse, com critério, nas dobras e na dinâmica posicional.

Este sistema foi utilizado em 17 jogos. Era, porém, um sistema de três defesas com uma nuance particular, pois á sua frente morava um trinco (Shéu) que, tacticamente inteligente, recuava quando a equipa se encontrava em acção defensiva, recompondo uma linha de quatro no sector recuado. Foi exactamente esta a dinâmica que Adriaanse utilizou a época passada no AZ, com um trinco (Lindenbergh) que recuava para central quando a equipa defendia. Quando regressou a Portugal, nos anos 90, Eriksson voltou a surpreender com um sistema de três defesas no FC Porto-Benfica que decidiu o titulo da época 91/92. Nessa tarde, Eriksson alinhou numa espécie de 3x4x1x2: 3 defesas (William-Paulo Madeira-Ricardo), laterais ofensivos (Paneira-Veloso), dois trincos (Paulo Sousa-Thern), um médios ofensivos (Valdo) e dois avançados (Rui águas, ponta de lança e Pacheco, extremo. Um sistema que manietou Artur Jorge e, perto do fim, venceu o jogo com dois golos de César Brito.

O FC PORTO COM TRÊS DEFESAS: Os 5-0 de Oliveira na Luz, Ivic-87 a Couceiro-2005

Sistemas de três defesas no futebol portuguêsNo FC Porto, o grande momento em que a equipa jogando num sistema de três defesas logrou uma exibição e um resultado histórico, remonta ao ano de 1996, quando, na Super-Taça disputada na Luz. A equipa azul e branca, então treinado por Oliveira, esmagou o Benfica de Autuori: 0-5! Nessa noite, o FC Porto jogou com três defesas (João Manuel Pinto, Jorge Costa e Lula, libero), laterais a subir (Sérgio Conceição-Fernando Mendes) três médios (Paulinho Santos, mais recuado, Wetl e Zahovic mais soltos) e dois avançados que partiam das alas em diagonal (Artur-Edmilsson). O mesmo sistema e onze (substituindo J. Pinto por Aloísio) que poucas semanas antes ganhara em Milão (2-3) para a Liga dos Campeões. Em 87/88, Tomislav Ivic, quando pegou no FC Porto campeão europeu, também ensaiou um sistema de três defesas. A oportunidade surgiu em Setúbal. Nesse jogo, o seu FC Porto alinhou com 3 centrais (Geraldão, Eduardo Luís e Celso, libero), João Pinto-Inácio laterais, André, trinco, Jaime-Magalhãs-Sousa a meio campo, e Madjer, na frente, apoiado por Rui Barros. Sem rotina, nem vocação para jogar nesse sistema, a equipa parecia perdida em campo. Sofreu quatro golos e nunca encontrou o posicionamento certo para defender.

O seu fabuloso ataque iria garantir o empate (4-4), mas, após esta experiência, nunca mais o sistema de três defesas voltaria a ser repetido nas Antas. Na época passada, o FC Porto de Couceiro também ensaiou, em Milão, contra o Inter, na Liga dos Campeões, a defesa a «3». Nessa noite, o FC Porto jogou com 3 centrais (Jorge Costa-Ricardo Costa-Pedro Emanuel), laterais a subir (Seitaridis-Nuno Valente) e dois trincos-volantes (Costinha-Maniche). Sofrendo um golo cedo, o onze nunca revelou, no entanto, mecanização em jogar nesse sistema. Falhou nas transições defesa-ataque e sofreu nas de ataque-defesa. Findo jogo, o modelo de defesa a «3» regressou ao bloco de notas e nunca mais de lá saiu.

OUTROS CASOS DE DEFESA A «3» NO FUTEBOL PORTUGUÊS: De Manuel Oliveira a Inácio

Sistemas de três defesas no futebol portuguêsManuel José, que fora um critico desse sistema quando substituiu Toshack no Sporting, também o iria utilizar no seu excelente Boavista, já nos anos 90. Em 95/96, os três defesas mais utilizados foram Tavares, Rui Bento, e Litos, com os laterais e médios ala (Jaime Alves, Nelo, Caetano e Mario Silva) muito activos ofensivamente, terminando a época em quarto lugar. Nas épocas seguintes, Quinito ensaiou esse sistema em Guimarães, inventando, então Fernando Meira como libero. Recentemente, Inácio também esquematizou, em Guimarães, o mesmo sistema, mesmo tendo pegado na equipa já a meio da época e lutando para não descer. No ano seguinte, o modelo surgiu mais rotinado, e, com ele, andou muito tempo no topo da classificação.

No geral, porém, é raro ver grandes equipas portuguesas a jogar neste sistema. Em muitos casos, no passado, tal só sucedeu por mera ilusão, pois, mais do que três defesas, tratava-se, na verdade, de cinco defesas. Isto é, três centrais, quase sempre com libero e dois a marcar individualmente, numa clara opção de reforço defensivo. Quando chegou, perto do fim da época passada, ao Moreirense, Jorge Jesus tentou salvar a equipa com os princípios tácticos desses sistema, mas, sem rotina de jogo, nem jogadores capazes de o interpretar, o onze nunca se encontraria e acabou por descer. Perdidas nos anos 60, ficaram as experiências pioneiras de Manuel Oliveira com o seu sensacional Barreirense, que, em 69/70, jogando muitas vezes em 3x5x2, atingiu o 4ºlugar e conquistou uma então histórica qualificação europeia.

OS TRÊS DEFESAS NA SELECÇÃO PORTUGUESA: A utopia de Scolari e os olímpicos de Romão

Sistemas de três defesas no futebol portuguêsQuando chegou a Portugal, como campeão do mundo pelo Brasil jogando em 3x5x2, Scolari, também tentou, no primeiro jogo com a selecção portuguesa, contra a Itália, jogar no mesmo sistema. Nessa noite, Portugal entrou a jogar com 3 defesas (Ricardo Rocha-Meira-Fernndo Couto) e laterais de apoio (Sérgio Conceição e Nuno Valente). Foi, tacticamente, sistema e dinâmica, um falhanço rotundo. Ainda não terminara a primeira parte e Scolari já percebera que era um utopia aplicar á selecção portuguesa um sistema que, por si só, por exigir jogadores muitos especifico em determinadas funções (centrais-laterais-trincos) é impossível de universalizar.

Em termos de selecção, outra incursão nesse sistema de defesa a «3», surgiu, com a selecção olímpica de José Romão, que antes já jogara assim, com sucesso, em alguns jogos, do Euro Sub-21, como na vitória em Inglaterra. Nos Jogos Olímpicos, porém, tudo seria diferente. Contra a Costa Rica, por exemplo, alinhou com Fernando Meira a libero, e Ricardo Costa-João Paulo centrais de marcação. A derrota por 2-4 e um gol-average global de nove golos sofridos em três jogos ditaram a sentença: o sistema de três defesas voltara a falhar no futebol português.

Sistemas de três defesas no futebol portuguêsBENFICA 90/91: A equipa e a táctica com defesa a «3» utilizada por Eriksson nas Antas no jogo que decide o titulo (vitória sobre o FC Porto por 0-2)

 

 

 

 

 

Sistemas de três defesas no futebol portuguêsFC PORTO 87/88: A experência de três defesas ensaiada por Tomislav Ivic em Setubal (empate 4-4)

 

 

 

 

 

Sistemas de três defesas no futebol portuguêsSPORTING 84/85: Um dos onzes-base apresentados por Toschak num sistema de três centrais