Sporting : crise de um sonho»

07 de Dezembro de 2006

Sporting crise de um sonho»

Lembram-se do dia 12 de Setembro? Nessa noite assistimos a uma das melhores exibições de uma equipa portuguesa na Liga dos Campeões dos últimos tempos. Com um futebol empolgante, um irreverente Sporting virava de pernas para o ar o poderoso Inter e ganhava o direito a sonhar na Europa.

Menos de três meses depois, no mesmo local, uma equipa russa que não ganhava na Champions há 22 jogos, devolveu o mundo leão à realidade, varreu o relvado com três golos e o Sporting, com uma exibição sombria, caiu das provas europeias. Perdeu com o mesmo sistema e táctica com que vencera o poderoso Inter. Em busca de razões para esta quebra, de qualidade de jogo e resultados, salta à vista, desde logo, entre os dois períodos, a diferença de nível exibicional dos quatro leãozinhos rebeldes que tanto fizeram sonhar: Veloso, Moutinho, Nani e Djaló. Cada caso tem as suas razões especificas, mas, tirando Veloso que, por opção, foi substituído por Custódio ou Paredes, nos outros três cruzam-se questões de natureza táctica com outras relacionadas com um, talvez, demasiado acelerado processo de crescimento futebolístico. Ok, é sempre de elogiar a aposta em jovens, mas o risco de, nesse processo, saltarem etapas na maturação competitiva nunca pode ser esquecido. Como diria Menotti, é como se a um médico cirurgião hoje licenciado o mandassem logo amanhã fazer um transplante ao coração. Deve-se começar por uma cirurgia menor.

Todo o jogo do Sporting depende hoje, essencialmente, do meio-campo para a frente, do que fazem esses jogadores, na organização e na criação. Nas grandes e pequenas cirurgias (entenda-se nos grandes jogos, da Champions, Porto e Benfica, ou nos pequenos jogos do nosso campeonato). Djaló é um jogador em desenvolvimento. A imaginação repentista do seu jogo ainda não tem, no entanto, o peso para se colocar a criação ofensiva na sua dependência, muitos menos quando colocado na posição 10. Noutro prisma, Nani é hoje, claramente, um jogador emocionalmente intranquilo. O seu talento necessita voltar a por os pés na relva. Mouutinho é aquele no qual detecto, de forma mais clara, um erro táctico. Já o disse várias vezes: custa-me vê-lo jogar descaído sobre um flanco.

Dessa posição não consegue soltar a sua capacidade de organizar jogo, rematar ou fazer os tais passes verticais que desmarcam os avançados na área. A questão física é, assim, algo que considero, por si só, reduzido, para explicar o momento sombrio destes talentos. É evidente que ele é importante, decisiva mesmo, mas impossível de ser dissociada de outros dois componentes, a táctica e a psicológica. Os três vectores: físico, táctica e psíquico que ditam a chamada forma desportiva. E o, nesse sentido, o Sporting é hoje uma equipa fora de forma. Quatro nomes, quatro casos, que são a essência do tempestade que atravessa o projecto de Paulo Bento.

O ECLIPSE DO GOLEADOR: Que se passa com Liedson?

Sporting crise de um sonho»Grande preocupação no Sporting reside em Liedson ter deixado de marcar golos. Da mesma forma que, em termos de confiança, uma equipa que ganha um jogo, ganha 50% do próximo, um goleador que falha um golo, quando logo a seguir tem outra oportunidade, já remata com menos 50% de confiança. Sentiu-se isso, por exemplo, em dois lances sucessivos frente à Naval Mas, eu prefiro ver a questão um pouco por outro lado. O que é mais preocupante é o Liedson ter …deixado de falhar golos. Ou seja, vendo bem, poucas vezes surge em condições verdadeiramente favoráveis para marcar. Nos grandes jogos, poucos remates fez em situações de finalização: Inter (0), Bayern (2), Benfica (0) FC Porto (2), Spartak (2). A raiz do problema está, portanto, na forma deficiente como está a ser servido. Com Moutinho desviado para a faixa e sem Carlos Martins, desapareceram os passes verticais que, acompanhados de um movimento seu em diagonal, muitas vezes o isolavam na área. Sem jogo pelos flancos, os cruzamentos esfumaram-se. Liedson perdeu ambas as referências.

COMO JOGOU CONTRA O SPARTAK: Quando uma equipa é um erro de «casting»

Sporting crise de um sonho»A recuperação emocional de um jogo para o outro é tanto, ou mais, importante do que a recuperação física. Ainda abalado pela derrota no derby, o Sporting entrou, frente ao Spartak, com uma atitude competitiva pouco concentrada e sem dinâmica. Manteve o sistema, mas mexeu demasiado equipa. Sem sucesso.

Desde a subida de Tello para o meio-campo à entrada de Ronny para lateral-esquerdo, até à troca de Custódio por Paredes e a colocação de Djaló como vértice ofensivo na posição 10, derivando Moutinho para a direita, todas as opções se revelaram contra-producentes para a equipa. Perdeu fluidez de movimentos, não conseguiu organizar a circulação de bola, perdeu consistência de transição defensiva e acabou, sem apelo, afastado das competições europeias.