SUPERTAÇA 5-0!: O “laboratório descontrolado”

04 de Agosto de 2019

O laboratório de Kaizer abriu a porta ao onze do Benfica que mexeu em tudo, revirou posições e deixou-o de pernas para o ar!   

1.

Um laboratório é, em geral, algo reservado, com proibição de pessoas estranhas ao serviço. Aplicado o conceito ao futebol, conclui-se que quando um treinador tenta algo diferente, nunca feito, ensaia-o antes do exibir publicamente. Se não for a assim, o efeito-surpresa raramente tem um efeito único. Isto é, surpreende a própria equipa (autora da surpresa) como o adversário (que depois do impacto inicial, adapta-se ao novo cenário).

O que levou Kaizer a montar frente ao Benfica um sistema táctico (e suas dinâmicas/princípios de jogo subjacentes) que nunca testara em nenhum jogo na pré-época? É verdade que o fizera a época passada, mas noutras circunstâncias, jogadores e solidificação de processos. Sem isso, este sistema de defesa a “3” que muitas vezes ficava numa “linha de 5” (porque os laterais Tierry e Acuna não subiam e voltavam como pretendido porque cedo viram que não teriam proteção de transição rápida defensiva) perdeu-se progressivamente em campo.

Apesar dos erros defensivos, onde o sistema leonino se afundou mesmo no jogo foi num erro conceptual de base: não ter meio-campo. Em tese, era um 3x4x3 que mantinha Bruno Fernandes a partir da esquerda. pelo que o “4” eram os laterais quando subiam e, no meio, com Doumbia a trinco, Wendell preso porque perante a movimentação encarnada por zonas interiores (onde surgiam os médios-centro e os dois alas a flectir) cedo percebeu que não podia adiantar-se como tinha feito muito bem em condução e até chegada de remate na pré-época.

Assim, onde deviam existir médios (ou seja no espaço onde devia estar o meio-campo do Sporting) existia fosso por onde jogou toda a dinâmica de profundidade ofensiva do Benfica (médios a subir, alas a flectir e até um ponta-de-lança a vir buscar jogo atrás).

3.

Não me falem portanto de descontrolo emocional como origem da goleada que disparou após o 2-0. Claro que a cabeça dos jogadores leoninos deixara de funcionar mas antes já deixara de funcionar a da leitura táctica correta. É essa a ordem certa das coisas no futebol de alto nível. O “transfer” de descontrolo táctico provoca o descontrolo emocional até os dois se cruzarem descontrolados.

E agora fica a pergunta: Kaizer vai repetir o sistema? Não acredito que o mantenha contra o Marítimo. Seria jogar tacticamente no precipício.

Se a equipa soube mover-se (mesmo com fragilidades) em 4x4x2 (ou 4x2x3x1 com Vietto a segundo avançado) não faz sentido, sem ter bases de aplicação de princípios de jogo assimilados, mudar o sistema que, acreditando que foi naturalmente treinado, nunca fora esta época testado nos jogos. 

Como recuar para avançar (jogar!)

Sem dar indícios no onze, o Benfica meteu estratégica no seu 4x4x2 e manietou o 3x4x3 leonino, “objecto táctico misterioso”. Para além dos extremos falsos jogarem por dentro (ligação interior sincronizada Pizzi-Rafa) deu nova vida á dupla de ataque: em vez de jogarem, como até agora, lado a lado, jogaram um atrás do outro. Isto é, Seferovic a nº9 fixo e Raul de Tomás por trás, entrelinhas, vindo buscar a bola de costas, segurando, rodando, arrastando marcações e caindo num espaço que controlava os médios-centro do Sporting no inicio de construção. Foi aqui que Lage começou a ganhar o jogo. Pelo movimentos diferentes de Tomas. Rigoroso no momento de recuo, e táctico-tecnicamente eficaz nas boas opções que tomou.

Grimaldo está a jogar bem (e afinado nos livres) mas cada vez tenho mais vontade de ver Nuno Tavares no seu flanco natural, a lateral-esquerdo. Na direita está condicionado em momentos de acrescentar “mais coisas qualitativas diferenciadoras” porque isso pede o seu melhor pé. Jogar atrás de Pizzi (que joga por dentro) expõem-no demasiado na transição defensiva. Se sobe e a equipa perde a bola, o flanco fica aberto. Lage está consciente disso. Este miúdo joga muito mas não pode, em jogos de alto nível, ser lateral-direito e esperar-se que não falhe.