Taça da Liga 2021: O Sporting de Amorim

29 de Janeiro de 2021




As chaves, tácticas e técnicas, do 3x4x3 ao impacto-Jovane que guiaram o Sporting
à conquista da Taça da Liga 20/21

Meia-Final: Sporting, 2- FC Porto, 1

1. Excessivo “jogo longo”

De inicio, o Sporting no habitual traço táctico de Amorim (3x4x2x1). Do outro, a inovação táctica de Conceição (3x4x3). As duas equipas assumem jogar/atacar sobretudo em profundidade, em passes longos. Sentem ser difícil segurar o centro do jogo e saltam esse espaço. Nos trios atacantes, a diferença era dada pelo avançado que não procurava profundidade e ficava atrás para receber entrelinhas: Pote Gonçalves no Sporting (soltando Nuno Santos e Tiago Tomás), Felipe Anderson no FC Porto (com Marega e Corona em trocas posicionais entre o centro e a meia-direita).
O avanço de Uribe para a posição “8” (ficando Grujic mais fixo a “6”) era para pressionar. Nessa missão, na mesma dupla no Sporting, Palhinha revela mais rotina para sair em pressão mesmo estando na posição “6”, permitindo a João Mário soltar-se mais no eixo central como um “8 mais livre”. As duas equipas tinham muita dificuldade em “abrir” o jogo em largura. Nenhum lateral conseguia subir em desequilíbrio.

2. Quem queria “jogar”?

Uma primeira parte demasiado “esticada”, com ambas as equipas a não respeitar jogo mais curto/apoiado (só o faziam para atrair/convidar o adversário a subir) e a abusar do jogo longo (excessiva busca rápida da profundidade). Só Pedro Gonçalves fugia a esse tipo de futebol e jogava diferenciado com bola.
Vendo o jogo, o que mais perturbava era ver a falta de intenção das equipas em jogar no meio-campo. Sem procurar ter nessa zona a fase de construção preferencial (com superioridade numérica) o jogo ficava “encaixado nas bolas longas sucessivas”. Nesse estilo, Felipe Anderson não percebia o jogo (porque não é este o “seu jogo”). Era, no FC Porto, sempre Corona a saber o melhor “plano de fuga” para fazer coisas diferentes com bola por zonas interiores (tal como “Pote” no Sporting). Os passos dados em frente por Uribe melhoraram o “jogo interior profundo” portista na segunda parte.

3. O jogador mágico

Nenhum treinador arriscou (muito) em tentar “desencaixar” o jogo mexendo ou alterando sistemas ou dinâmicas. Foram mais pela via das “sub-dinâmicas” possíveis com trocas posicionais (Zaidu por Manafá, para impulsionar a faixa portista e, sobretudo, Tiago Tomás por Jovane para dar mais agressividade ao avançado-centro leonino).
O golo de Marega foi como ver um jogador sozinho, em força, a furar este “muro”. O golo de Jovane foi como uma ironia de individualidade, em arco, a iluminar a noite. O impacto que teve, na agressividade e na técnica, buscando espaço vazio e profundidade, valeu o segundo golo e a vitória. Em dez minutos, um jogador colocou-se claramente acima do jogo todo.

O “mundo” de Jovane

Em poucos minutos (os finais, dramáticos e decisivos) Jovane mostrou como o futebol pode escapar à mais fria e dura realidade. O jogo parecia perdido para o Sporting num cenário em que todos fazíamos esforço para pensar (só) em futebol. E, de repente, um jogador leva-nos para um “mundo só seu”. Desde o remate colocado em arco que contornou o guarda-redes do FC Porto, levando a bola a bater no poste e entrar, até às lágrimas no final, que tinham alegria e revolta misturadas. Pelo meio, ficara, já nos descontos, o duelo mágico avançado-guarda-redes, quando se isolou e (outra vez no “mundo só seu”) finalizou como se soubesse quando rematou que o destino estava escrito e aquela bola ia entrar mesmo, sem dúvida
Gosto de jogadores assim. Que fazem golos destes e choram no fim. Têm futebol e vida à flor da pele arrepiada. Jovane não tem um estilo elegante de jogador (e de jogar) mas tem a percepção exata do que é jogar futebol (para si e para a equipa). Comigo, um jogador deste jogava sempre. Ou, se não pudesse, ia sempre no autocarro na mesma.

Final_
Sporting, 1- Sp. Braga, 0

1. Cada lance, cada choque

Há factores que escapam à análise táctica mais científica e elaborada. Também escapam, claro, às melhores ideias os treinadores e da execução técnica dos jogadores em campo. A jogada ou a pressão/recuperação bem feita, o bom passe de ruptura e entrar ou contra-ataque/ataque rápido a sair, e, de repente, a bola trava numa poça de água e um (ou dois) jogadores escorregam. Esqueçam, portanto, a ciência táctico-técnica. Tudo se torna excessivamente físico, de duelos divididos, de segunda bolas”. Sporting e Braga queriam jogar mas o terreno dizia que não.
Os movimentos, porém, estavam lá. O Braga procurou desde inicio construir longo. O Sporting procurava “associar” mais pelo corredor central mas chocava com a definição perfeita dos “timings” sincronizados de pressão alta bracarense. Cada jogada, cada choque.
O golo nasce dos “olhos abertos” do lateral Porro a subir e do “acordar tarde” de Galeno (então a defender como lateral) a reagir a uma bola parada marcada rápida.

2. Como mexer no meio?

Conduzir em posse era como desafiar o relvado. Com Nuno Santos, o Sporting buscava atacar melhor a profundidade (mas as poças não deixavam). Com Paulinho, o Braga buscava ter outra presença, de apoio e rotação rápida de remate entre centrais adversários (esteve perto do 1-1).
Defendendo quase sempre a “5”, o Sporting (a ganha) procurava fechar em largura. Prioridade à organização defensiva (com Palhinha a esperar atrás a cobrir/segurar) perante um Braga mais subido. O maior perigo, porém, vinha da “ala esquerda voadora” de Galeno, quando a equipa “abria” jogo. No Sporting, vinha de Pedro Gonçalves, estivesse onde estivesse. Faz tudo bem (e esteve perto do 2-0).
Uma nota: a importância (decisiva) do guarda-redes Matheus para, atuando (quase) como “líbero”, para o jogo... ofensivo do Braga.

3. Organização “verde”

O Braga leu bem a forçar o “bater em profundidade” para tentar o empate com o final a aproximar-se. Jogou/atacou melhor em 4x4x2. Subiu o peso da pressão da equipa ao máximo (enorme Al Musrati) e obrigou o Sporting a ativar o processo defensivo (5x4x1 em organização) em que é forte (até aos limites do bloco-baixo com Coates, gigante, a tirar tudo de cabeça).
O ultimo lance do jogo trouxe um livre lateral perigoso para o Braga. A defesa de Adán prova como é sempre importante acrescentar mais um numero aos sistemas tácticos. Nesse ultimo momento, o fechar da “caixa forte da organização táctica-defensiva” do Sporting chave para a vitória.
Nota: num contexto de Final, emoção, chuva e choques, a expulsão (sem qualquer diálogo/aviso prévio) dos dois treinadores que discutiam um com o outro, no calor do jogo, é o cúmulo da insensibilidade da arbitragem.