TÁCTICAS LIGA 2004/05: FC PORTO E BRAGA

30 de Dezembro de 2004




FC PORTO

Dos cinco primeiros, separados por apenas três pontos, o FC Porto continua a assumir-se como o principal candidato, mas ainda não conseguiu adquirir, esta época, uma identidade própria perfeitamente definida. Perdeu a capacidade de controlar os jogos, com ou sem bola, como fazia com a teia-de-aranha de Mourinho e, sem essas referências, com jogadores novos e um design táctico diferente, não consegue manter a mesma concentração e mecanização durante noventa minutos. Apesar das duas derrotas em casa com Beira-Mar e Boavista, e de ter menos 11 pontos do que na época passada por esta altura, o FC Porto continua a ser, quando inspirado, e num dia...normal, a mais forte equipa portuguesa.

Dizem que contra o FC Porto todas as equipas correm e jogam com dobro da concentração. É verdade, mas o mérito deste facto é, sobretudo, do que o FC Porto obriga, normalmente, qualquer equipa a fazer para ter qualquer possibilidade de lhe ganhar, ou, no mínimo, empatar. Dirão que com Mourinho era quase invencível, que Fernandez não tem a mesma força, que Diego não é Deco e que até a relva não é a mesma, mas o certo é que o onze azul e branco tem, individual e colectivamente, o melhor conjunto da Super Liga, o único de verdadeira dimensão internacional, capaz de competir ao mais alto nível na Liga dos Campeões. A questão que condiciona a evolução do sistema Fernandez está na falta de mecanização meio campo-ataque para jogar em 4x3x3. Sem extremos natos, tirando Quaresma num dia inspirado, a bola rola melhor de pé para pé quando em 4x4x2. No equilibrio do onze, Costinha continua ser o jogador-chave para estabilizar a equipa defensivamente, segurar a bola e reger o recuo das linhas sem ela nunca perder capacidade atacante. Por isso, Costinha já é um dos melhores treinadores do mundo a passar todo o jogo dentro do relvado, com a bola nos pés. Há, assim, cinco equipas a sonhar com o titulo, mas candidato real, só há um: o FC Porto.

 TÁCTICAS LIGA 2004 05 FC PORTO E BRAGA O que falta a este FC Porto? Com a defesa a «4», Seitaridis é indiscutível na lateral esquerda. Jorge Costa, apesar de cada vez mais lento, fazendo recordar os velhos jogadores do passado que jogavam até já ninguém se lembrar da sua verdadeira idade, continua a ser o patrão do sector.

A seu lado, ou joga Pepe, rápido, mas falhando muitas vezes o timing de entrada para o corte, ou Pedro Emanuel, um central durinho. O melhor defesa central do FC Porto joga a...defesa esquerdo. Chama-se Ricardo Costa. Vai bem por alto, forte de cabeça, sabe sair a jogar, tem grande sentido posicional, técnica e personalidade. O FC Porto tem, no entanto, um problema no lado esquerdo. Do lateral ao extremo, passando pelo médio, este é um corredor em claro défict de qualidade. Após a enigmática dispensa de Rossato, a lesão de Nuno Valente e a desconfiança em apostar em Areias, é imperioso contratar um lateral-esquerdo. Vem o brasileiro Leandro. É melhor a atacar que a defender. Tem do seu lado, porém, o facto de jogar no lugar onde menos se sente a transição entre o futebol sul americano e o europeu. Falta a este FC Porto, depois, um médio e/ou um extremo-esquerdo para fazer o flanco canhoto em termos atacantes, algo para o qual Derlei (que jogou nessa posição no União de Leiria) fazia com Mourinho mas como segundo avançado do 4x4x2, com liberdade de movimentos, descaíndo para os flancos em busca de espaços para rasgar, mas não como extremo puro com a missão de ir á linha cruzar para o avançado centro como parece pedir-lhe Fernandez. Na direita, Quaresma é imprevisivel.

Alterna a finta impossível ou a jogada de sonho, com o passe infantil ou a desconcentração comprometedora. Não fecha o flanco e, sem Maniche, o FC Porto sofre muito a defender, num flanco em que Bosingwa não tem, claramente, estatura para ser titular.

Diego é um grande jogador. Cresce de jogo para jogo. A cada segundo que passa, conhece melhor o ritmo europeu. Tem tudo para ser um nº10 de classe mundial. Não tem a escola táctica do futebol europeu, não faz as faltas que fazia Deco, nem passa tão bem de primeira, mas é apenas uma questão de tempo. Conheço-o desde há várias épocas. Agora, não lhe peçam (como a qualquer jogador sul-americano) para começar a jogar na Europa com a mesma categoria que jogava na America do Sul, logo mal acabe de descer do avião. O mesmo vale, salvo as devidas proporções, em termos de posição, para Luis Fabiano.

 TÁCTICAS LIGA 2004 05 FC PORTO E BRAGA No ataque, McCarthy permanece a grande referência goleadora e Carlos Alberto (que, recorde-se, foi titular na meia-final e final da Liga dos Campeões, na vez do sul-africano) vive um dilema que parece poder levar á sua dispensa, inexplicável em termos desportivos. Criativo, rápido a fintar, desiquilibrando no drible (é daqueles jogadores que, quando dribla, não faz para o lado,, mas, pelo contrário, passa um adversário, ganha espaço, avança no terreno e levanta a cabeça para ver a melhor forma de furar a defesa, com um passe ou procurando a falta.) Carlos Alberto joga melhor em 4x4x2, nas costas dos avançados, caindo para os flancos, deambulando sem posição fixa, do que num 4x2x3x1, onde não tem lugar para encaixar.

Sem ele, O FC Porto perde um dos seus médios mais criativos técnica e tacticamente. Noutro prisma, existe a questão Maniche, o dragão-box to box. Estará fora cerca de dois meses e do seu regresso depende muito do sucesso do FC Porto esta época. Com ele o meio campo tem muita maior força nas transições defesa-ataque-defesa. Sem ele, Costinha tem de correr a dobrar e perde-se o melhor transportador de bola do onze. É, por isso, necessário, aproximar mais as linhas, pelo que o 4x4x2 terá de ser o sistema de referência para o FC Porto dos próximos tempos.

SPORTING BRAGA: A «CARRAÇA» DE JESUALDO

 TÁCTICAS LIGA 2004 05 FC PORTO E BRAGA Em termos de consistência como equipa, a grande revelação deste campeonato, é, claramente, o Sporting de Braga de Jesualdo Ferreira. Uma solidez colectiva que começa num belo quarteto defensivo, com dois excelente laterais capazes de dar grande profundidade de jogo pelos flancos, Abel, á direita e Jorge Luiz, á esquerda, e uma forte dupla de centrais: Nem-Nunes, enquanto o brasileiro joga de «cadeira», o português destaca-se mais em acções de marcação. Ambos contam, á sua frente, com uma primeira linha de cobertura defensiva implacável na perseguição e caça da bola sempre que esta invade o ultimo terço de terreno arsenalista. Uma tarefa desempenhada por trincos-carraça como Luís Loureiro e Vandinho. Nesta postura, este Sporting de Braga é um onze mestre em não deixar jogar o adversário. Fecha e controla os espaços, especula com a bola, torna o jogo mais lento, segura a bola e monta uma teia-de-aranha á frente da sua área. É, por isso, uma equipa mais forte quando aborda os jogos partindo desta premissa (não deixar jogar o adversário e, depois, paulatinamente, ir começando a pegar no jogo, avançando com segurança- do que quando tem de assumir o ataque continuado desde o primeiro minuto, como nos jogos em casa contra o Penafiel ou V. Setubal.

Na frente deste núcleo duro de contenção, solta-se o jogador tecnicamente mais criativo do onze, o nº10 Jaime, um poema de técnica, mas incapaz de imprimir ao jogo ofensivo as bruscas mudanças de ritmo indispensáveis para furar defesas mais fechadas. É isso que falta a este Sporting de Braça. Um médio ofensivo rápido, algo que consegue ser compensado quando os alas Wender-Paulo Sérgio estão num dia inspirado, sobretudo o «perna-longa» brasileiro, um perigo á solta, o tipo de avançado capaz de colocar um defesa louco com as suas movimentações, dribles, simulações de falta e, claro, remates para golo.

Com o nº9, João Tomás continua fiel ao estilo que o consagrou. Num dia inspirado, parece um grande avançado centro de área. Num dia normal, alterna bons movimentos, com outros em que parece adormecido. Fica a expectativa, para a segunda volta, em torno do rendimento de dois nomes que só surgiram no avançar da época: o extremo brasileiro Cesinha. Com espaço, em corrida, é melhor preparar uma armadilha de urso para o travar, e o ponta de lança vindo dos juniores, Cícero, já cobiçado pelo Newcastyle. Quando salta, não perde uma bola de cabeça. Pode ser um monstro, mas vê-se que lhe falta futebol de base. É incapaz de fazer uma diagonal de desmarcação e muitas vezes quase se mete no meio dos defesas. Com espaço e a bola bem metida, é um goleador em potência. Sigam-no.