Terrivelmente simples

10 de Outubro de 2020

A diferença entre uma equipa estar em campo e estar no... jogo! Parece igual, mas é muito diferente. Nas tácticas e nas individualidades

Mais do que ver Lito Vidigal como um “resultadista”, vejo-o como um treinador que se ri atrás das portas dos adversários. Reconhece que não tem, nos jogos contra os grandes, as mesmas armas ofensivas, pelo que a forma como os defronta é como se escondesse a sua equipa em campo.

Ou seja, parece que só a mete para defender, pelo posicionamento dos três centrais num esquema de 5x4x1, na trincheira dos últimos 30 metros, mas depois, quando o adversário dominador está só empenhado em atacar (convencido que não lhe pode acontecer nada defensivamente) sabe sair desde trás (em 3x4x3) para o ferir. Foi assim que meteu o Marítimo em campo e no... jogo contra o FC Porto. Duas formas que parecem iguais (estar no campo e no jogo) mas que são totalmente diferentes.

Dentro desta estratégia, um ponta-de-lança que evoluiu muito no saber usar a sua técnica com sentido de golo (Rodrigo Pinho), um trinco que sabe conter o espaço entrelinhas defensivo (Irmer) e uma locomotiva a comer metros a voar para a baliza (Nanu). Tudo seguro por um guarda-redes completo, Amir. Mais do que o FC Porto perder, foi o Marítimo (e o “martelo” de Lito) a ganhar o jogo.

A mudança de dinâmica táctica do 3x4x3 do Braga e sua eficácia na relação com um golo teve nomes próprios: Galeno a fazer todo o flanco esquerdo em velocidade objectiva na direção ao golo ou criação de jogadas de golo (os que marcou e deu a marcar) e a mudança do duplo-pivot do meio-campo, onde em vez da “árvore de passe para o lado” Al Musrati, surgiu a saída com visão e raça de Fransérgio e Castro, respectivamente. Entrando forte nesta nova dinâmica colectiva a partir dessas... individualidades, a equipa melhorou muito o jogo em relação á “enceradeira” de ideias com a bola que revelou contra o Santa Clara. A eficácia (a falta dela ou sua efetividade) é um “grande detalhe” que tende, como argumento, a esconder ou mostrar as grandes competências que verdadeiramente dizem como uma equipa joga.

É verdade que durou apenas 25 minutos dentro dos 90 do jogo todo mas, durante esse tempo, o Farense deu um recital de bom futebol a partir do meio-campo com o “trabalho” da dupla Fabrício-Lucca, apoiado por Amine e Falcão, com Gauld solto mais á frente. Roubou a bola ao Benfica, circulou-a por todo o campo, variando rápido de flanco e penetrando bem na defesa encarnada criou vários lances de golo. Quando perdeu o poder de jogar com bola, a sua defesa (processo defensivo) não soube aguentar jogar sem... bola. Perdeu, assim, o jogo, mas percebeu onde está o desequilíbrios da operacionalização nas transições da sua boa ideia de jogo na relação defesa-ataque.

Os factores de mudança

Uma grande exibição colectiva, do Paços Ferreira, contra uma grande exibição individual, do guarda-redes do V. Guimarães, Bruno Varela. No resultado, ganhou o segundo factor. No jogo, o bom futebol do onze de Pepa, assente num 4x3x3 que ganha, a meio-campo, uma visão de jogo superior com a colocação de Eustáquio como nº6 (em vez de a nº8). Com um pivot com esta qualidade no inicio de construção (em vez do pilar Diaby) a fluidez de jogo defesa-ataque da equipa muda logo. Olhando o onze, Oleg está um lateral cada vez mais completo por todo o corredor, Bruno Costa dá rotação, com posse e pressão, ao meio-campo, Tanque é um nº9 de remate fácil e Singh, quando inspirado, cria perigo sozinho. Faltou o golo como elo final-decisivo para um bom processo de jogo.

Outra equipa que continua consistente é o Santa Clara. Repetiu a estrutura a “3” (com que defendera em Braga) para agora ser um plano de atacar o Gil Vicente em casa. Não marcou mas mostrou, pela forma que jogou bem nos dois casos, como a mesma estrutura pode ter dinâmicas e missões diferentes. Muitas vezes, é nesta capacidade de adquirir duas posturas no jogo tão diferentes surgindo de inicio com a mesma “cara táctica”, está a base para surpreender os adversários.

Gosto da ideia de Vasco Seabra para o seu Boavista mas vendo os seus jogos sinto que a equipa ainda entra em campo apenas para... jogar e não para verdadeiramente... competir. Ou seja, estão lá as ideias com bola de “jogo associativo” mas ainda sem a “agressividade táctica” necessária para ter um nível competitivo alto nos espaços, sobretudo sem bola. Um processo de construção natural que vai da ideia de jogo para a competição, indispensável mesmo com a marcar um golo desde o meio-campo.

Mudar as rotinas tácticas de uma equipa acaba muitas vezes mais por surpreender ela própria (por a colocar num território de princípios de jogo desconhecidos) do que o adversário. Paulo Sérgio reconheceu isso em relação á sua estratégia em que mudava para a defesa a “3” (em vez da clássica a “4”). Os jogadores deixaram de ter os posicionamentos certos, nem fazer, sobretudo em largura, os encurtamentos obrigatórios ao adversário e em 5 minutos perdia 0-2. Mudou de imediato, mas já perdera o poder de marcar uma tendência no jogo. Os jogadores também são “animais futebolísticos de hábitos”. Sobretudo a defender.