Treinadores: As tácticas e as «máscaras»

15 de Dezembro de 2006

Treinadores As tácticas e as «máscaras»

Os pensadores do futebol português não hesitam em o eleger como o grande símbolo do que é um treinador defensivo. Falo do Professor Neca. Ficou célebre aquela história, quando, no Tirsense, disse, na palestra aos seus jogadores antes de entrar em campo contra o Benfica, para “se esquecerem que a baliza do Benfica existe. Preocupem-se apenas em defender a nossa!”. O professor já confessou que, sim senhor, a história é verdadeira, mas, ok, porque naquela altura, fins dos anos 80, a diferença entre as equipas era abissal. Esta semana, porém, Domingos afirmou no fim do jogo com o Aves de Neca que o principal culpado do mau espectáculo era o bloco-baixo que o adversário utilizara. Não é bem assim. Embora a sapiência táctica do Professor Neca prefira efectivamente o bloco-baixo, isso pode não ser, por si só, sinónimo de defensivismo. O que define, então, um treinador defensivo?

Ora bem, podemos recorrer aos onze contos de futebol de Don Camilo José Cela e descobrir uma história que embora profundamente disparatada, é uma metáfora sobre tácticas defensivas. É um conto sobre Gainsborough XXI, veloz corredor de fundo, famoso por se ter sagrado campeão da Europa mas, logo de imediato desclassificado ao descobrir-se que, afinal, ele era um cavalo. Pois bem, entristecido com este desfecho, Gainsborough XX decidiria, então, tornar-se treinador de futebol e começou a orientar o recôndito Waldetrudis Pucará FC. A sua equipa levava até ao limite as tácticas defensivas e jogava com dois guarda redes: Teógenes, guarda redes direito e Teogonio, guarda redes esquerdo.

Treinadores As tácticas e as «máscaras»As regras apenas permitem ao Professor Neca jogar só com um guarda-redes. Mas, o problema, na prática, não é esse. Quando treinavam o Est. Amadora ou o Académica, só para citar dois exemplos, Jesualdo Ferreira e Fernando Santos também não começavam a pensar, nem podiam, a estratégia para um jogo sob um princípio tão ofensivo como fazem no Porto ou Benfica. É claro que hoje também se preocupam com a recolocação da equipa a defender, mas, na prática, o grande problema das ditas equipas pequenas, que entram em campo principalmente a pensar apenas em meio-jogo (o jogo defensivo), reside em não conseguir unir a equipa no momento atacante. A qualidade individual, colocada ao serviço do colectivo, é o que permite atingir esse objectivo dinâmico em campo.

Quando estou a ver um jogo e tenho um ataque de treinador, prefiro meter-me na cabeça do treinador da equipa mais pequena e, face ao adversário que nos tenta sufocar, tentar imaginar o que faria no seu lugar. Isto só é possível conhecendo bem todos os jogadores, estilo e características, que esse treinador tem ao seu dispor. Não adianta estar a pensar que agora é que era preciso meter um ala direito rápido se o que está no banco é um esquerdino lento e que até gosta mais de jogar no centro. Sempre que se fala um talento no futebol, o natural é pensar-se logo em avançados ou médios-ofensivos. Parece que a palavra talento só faz sentido se ligada à arte atacante. Não penso assim. Há, também, o talento defensivo, tão nobre como o outro. Defender não é impedir o adversário de atacar, mas também e sobretudo, recuperar a bola, para entregá-la a um companheiro e iniciar o momento atacante ataque, o jogo ofensivo. Para tal, é necessário talento, visão de jogo e antecipar os movimentos seguintes, tirar a iniciativa ao adversário e contra-atacar.

Assim, todos os jogadores, defesas, médios e avançados, têm de jogar o chamado «jogo completo».

Treinadores As tácticas e as «máscaras»Neste sentido, pode parecer um paradoxo, mas, durante aqueles meus ataques de treinador, sinto que o que lhe falta muitas vezes ás equipas ditas mais pequenas (as tais que tentam equilibrar um jogo inteiro disputando apenas meio-jogo) para conseguir estender a equipa a atacar, mesmo jogando em bloco-baixo, é um ponta-de-lança com…talento defensivo.

Estranho? Não. Falo de um homem, regra geral corpulento, que saiba segurar a bola, como se fosse uma ilha rodeada de adversários por todos os lados, esperando pela subida dos colegas recuados. Isto é impossível se, ao invés, pensando assim contra-atacar melhor, alinhar com um nº9 veloz que só joga nos espaços vazios. Portanto, para mim, treinador defensivo é aquele que só se preocupa jogar apenas o tal meio-jogo, o defensivo. Como só o 0-0 fosse sinónimo de um jogo perfeito e sem erros.