Viva a Festa da Taça! Mas até quando?

10 de Fevereiro de 2021




A Taça de Portugal é por natureza a competição que melhor espelha o Futebol que tanto gostamos: o jogo acessível a todos e imprevisível até ao apito final do árbitro.

Anualmente a esperança é renovada e todos os Clubes do futebol nacional sonham em protagonizar uma bela campanha que os leve o mais longe possível, até à final do Jamor, palco idílico de tantas glórias.

Em cada recanto do nosso país estes dias vivem-se intensamente num ambiente de verdadeira festa. Os sorteios são acompanhados com expectativa, ansiando-se por uma receção graúda que empolgue as gentes do clube da terra. Em dias de Taça há uma genuína comunhão entre as populações e o seu clube local, momentaneamente focos de atenção mediática numa algazarra feliz. Naquelas tardes solarengas forjam-se heróis para a eternidade, criam-se lembranças para a vida e os chamados “tomba-gigantes” ganham corpo. A crença numa surpresa e na bola, sempre redonda, é sentida com fervor.

Esta dimensão espetacular que dá cor ao nosso futebol segue em crescendo, numa onda cada vez mais efusiva à medida que as eliminatórias se vão sucedendo. Contudo, desde a temporada de 2008/2009 que as meias-finais daquela que é justamente considerada a Prova Rainha são disputadas a duas mãos, tantas vezes desfasadas no calendário.

Justamente quando o sonho da final está ali tão perto, emerge este obstáculo tantas vezes decisivo e potenciador de um agudizar das enormes assimetrias que marcam o nosso futebol, por si já tão concentrado. Se num jogo tudo é possível, em dois, nem tanto. Caminho aberto para a imposição da lei do mais forte. Parece um contrassenso numa competição que, desta feita, perde parte da sua nobreza e da fantasia quase pueril bem patente até esse ponto do percurso.

Ainda assim, há espaço para os “tomba-gigantes”? Sim, porque o Futebol, o jogo jogado, não é uma ciência exata. Mas a sua tarefa fica indiscutivelmente mais difícil, o que vem valorizar ainda mais as surpresas a que desde então fomos assistindo maravilhados.

O belo jogo teima em resistir, na sua essência mais pura.

 

Adolfo Serrão